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Beatriz Botelho Vasconcelos

Beatriz Botelho Vasconcelos

Beatriz Botelho Vasconcelos

SETE PAISAGENS E UMA NATUREZA MORTA

Beatriz Botelho Vasconcelos

NATUREZA MORTA

Sobre a toalha xadrez De branco vermelho e azul Estão todos à espera Em serena disponibilidade. Uma banana madura Quase da cor da laranja Encostada no pequeno Abacaxi sem coroa. E dois peixes avermelhados. Todos juntos e, no entanto, Cada qual mais isolado Dentro de sua forma, Esperam tranquilos o despertar Do humano apetite animal.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

O BURITIZAL

O vento passa Ramalhando copas No buritizal. E as palmeiras Mesmo agora que é agosto Mesmo agora Que todas as águas vão secando Aos seus pés, Continuam verdes Continuam lindas. E pela mesma vereda Seguem sempre. E cada tronco, Cada palmeira nova É um passo a mais No desfilar imóvel Do buritizal.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

ILHAZINHA

DE

MATO

Vivia sozinho o riacho. Um dia até ele vieram árvores Flores e palmas E até suas árvores, flores E palmas vieram pássaros insetos e orquídeas. E agora, ilhazinha de mato Solitária, perdida No mar imoto Dos vastos campos tristes, Quem ainda esperas chegar Pelos caminhos dos ventos?

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Beatriz Botelho Vasconcelos

BUCÓLICA

O desapego Das folhas secas Escorregando Pelo limo dos troncos O chocalhar sonoro Dos cascalhos No fundo ferruginoso Do córrego. Preso na cacimba O pequeno peixe Se debate. Estalidos de cipós, Uma risada bestial Em estremecimentos Agita a folhagem; E a mascar frutas verdes Asperso de orvalho Envereda um belo fauno pela tarde a dentro Em grandes passadas Ao encontro das sereias da noite.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

O CÓRREGO

O córrego saiu assustado Do matinho de muricis Para logo seguir cantando Já alegre, pelo campo limpo A regar as samambaias brilhantes E as salsaparrilhas. Mas lá na descida escarpada ­ como um cabritinho novo ­ Ele dá dois saldos no ar Para depois mais afoito Se jogar num grande salto Pelo morro abaixo. E suas águas caem Como grandes cortinas Que se desprendem Mas que acabam nunca De chegar ao chão. Ao chão ondulante E cheio de flocos brancos Do pequeno lago azul.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

CREPÚSCULO

Toca a buzina Chamando o boi. O dia fugiu do mato E vai se esvaindo Pelos campos, pelos descampados. Tão triste, tão devagar... Toca a buzina Chamando o boi E o boi não vem. E o som vai E volta sozinho Na voz do eco Depois fica parado, interdito Entre a tarde e a noite Enquanto na beira do córrego A mãe da lua canta Toda a tristeza Que eu quis cantar Mas não pude.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

CROMO

(Primavera)

EM cabriolas Sacudindo guizos Dançava linda Uma cabrinha branca Contra a luz do sol. E dançando Soltava ao vento Pêlos diáfanos Que o vento levando De novo trazia, Em rodopios azuis Rosas brancas Ouro, nácares em Pétalas. Delicadezas Que a vida inventa Imitando a fantasia.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

CLOSE­UP

Sob a folhagem escura Que a chuva prateou Um passarinho travesso Canta: "Ui! Ui! Ui!..." Perto, as bananeiras Alegres em grupo Com grandes leques Vão se abanando. E no musgo verde Que cobre o muro Duas rãzinhas Bem à vontade, Saltando brincam De pegador.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

P A I Z A G E N S H U M A N A S

(COM SOL)

Beatriz Botelho Vasconcelos INTERIOR

Já descia o sol A curva de seu braço. No tempo somente os olhos Calmos, sem nuvens de incertezas Faziam longo percurso, Sensibilizando o presente Brota-lhe de todo o ser Uma música indefinível Que em crescendo, satura a sala Transbordando pelas janelas. Está agora o dia Tímido aos seus pés. Na sombra, toda harmonia De sua unidade íntima Como se demais fosse Para uma humana forma apenas Tenta se escapar. Para onde? Para onde?

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Beatriz Botelho Vasconcelos

SESTA

A cidadezinha dorme Encolhida num cantinho do mundo. Enquanto pelas ruas tortas As horas, esquecidas se estiram Lentas e empoeiradas, Até se perderem nos becos escuros. A cidadezinha dorme Como o cachorrinho preguiçoso Que na grama do largo Dormita à sombra Entreabrindo de vez em quando Os olhos modorrentos Para se certificar Que as coisas ainda existem Ao derredor. A cidadezinha dorme, Dorme, encolhida Num cantinho do mundo.

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A DERROTA

Beatriz Botelho Vasconcelos

Que arma será melhor? A luta vai ser à note. Seu corpo fugia ao sol, Ai! Que me fugia Sob as ramagens densas Sem nunca chegar Sem nunca sair. Pelas noites sombrias E tormentosas, ora Ela cantava, ora chorava Ao vento. Rolando por toda a terra Por toda parte, Como uma folha morta. Seus olhos passando, Por todas as coisas através. Que arma será melhor? A luta vai ser à noite. Ao sol ela se esvai Para depois voltar. Quero o sangue do seu corpo Vago, de névoa fugidia... ......................................... Mas, oh! Vida, ó deuses! Rubro, rubro, tão Rubro como meu sangue É este sangue que escorre De suas chagas abertas Tristes olhos, Chorando na noite. E ele escorre em rios Tingindo a noite, Tingindo a terra A esvair minhas próprias veias.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

POEMA

A tristeza vive no sertão A vagar. Sobe morros Desce morros, corre ao lado dos rios Se embrenha pelos matagais, Cerrados e capoeiras. Passa com o vento nos canaviais E cerca as casas das fazendas. E se não a virmos de dia À noite é certo, ela vem. Segue o passo lento dos cavaleiros E com eles entra pelas porteiras E cancelas. Espalha-se no ar Perfumado dos campos, Nas cinzas das queimadas No mugido das vacas Na cantiga dos carros. Brinca nas águas dos regos E na chama das fogueiras Nas noites frias. E olha com a gente Em nosso modo de olhar Fala em nosso modo de falar E espera com a gente O que vivemos a esperar. Depois, cansada ela se esconde No bojo de uma viola E sem desespero, na vozinha Terna de uma toada Chora, chora a bom chorar.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

ELEGIA

O sol escondido iluminava com brandura a tarde sem mesmo de longe a perder de vista. Sobre a paisagem terna o tempo passou, estranho Sem sentir a vida que em meu coração, ardente palpitava sob aquele olhar triste e atento que me olhara um dia do mais alto galho da mangueira de minha infância. Daquela mangueira grande que dava laranjas também e de cujo tronco escorria o mel enchendo bocas ávidas que se abriam em risadas alegres sem nenhum por quê. Anoiteceu o sol na paisagem de minha lembrança. E fui correndo assustada, quando a voz quente da terra Ouvi a me chamar. Fugi correndo sob as estrelas e elas me olhavam como se quisessem cair sobre minha cabeça. Fugi correndo até a cidade e as pedras toscas das ruas se deslocavam aos meus pés, aos meus olhos, como se o mundo fosse acabar. ­ Porque andei eu como o vento a noite toda me lamentando se nem do som de meus passos se aperceberiam os viventes adormecidos?!

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Beatriz Botelho Vasconcelos

A AUSÊNCIA

Empurrei a porta devagar E devagar fui entrando. Senti meu rosto queimar E o olhar das coisas Me olhando.

As cadeiras, a mesa, A cama, o velho armário, Levavam um véu de tristeza Como se fosse Um sudário.

Fechando os olhos então Os meus passos aligeirei Sentindo meu coração Que de tudo quanto amei Apenas eu encontrara O peso daquela ausência

Que comigo levara.

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Beatriz Botelho Vasconcelos PARTIDA

Nos olhos brilhava A última chama Apaga não apaga.

Por uma fresta surge Em contorções harmoniosas Atravessando o leito Um cilindro de luz Cheio de pozinhos dourados.

Fora, nos campos O desespero faz encolher a terra Que sente desolada irem-se os seus rios Depois sobe até as pontas das árvores Tentando deter o vendo Que foge levando as chuvas.

No coração se desgarra O último pesar Acaba não acaba.

Bem longe na encosta Brotando por entre Os cabelos da tarde Caída na serra Agitam-se em frêmitos As folhas espalmadas As mil mãos abertas Dos mandiocais.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

INVASÃO

... e aquela coisa veio pela janela aberta Onde o vendo antes entrara Trazendo um perfume fresco de terra molhada E de flores nascidas no silêncio da manhã.

Veio e roçou de leve, bem de leve Minhas mãos, meu rosto, E pelas portas de meus sentidos Entrou em meu sonho profundo.

Senti minha alma pairando no ar, Um ar pesado, cheio de sonhos, E meu coração, sem saber por quê, Começou a rodar, a rodar, A rodar... e acordei.

Uma mão virava um disco Numa vitrola... um trecho de Mozart.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

DUAS

CANÇÕES

Beatriz Botelho Vasconcelos

CANÇÃO DE UM ADOLESCENTE

Sei que tenho lugar no mundo Mas não sei onde devo me sentar; Se é num trono de rei Se é num banco de réu Ou se devo sair e dar o meu lugar.

Sei que tenho um lugar no mundo Onde minha sombra deixo ficar Enquanto corro o céu e a terra A procura de um canto novo E de alguém para me escutar.

E quando eu morrer, sim, deixarei Um pouco mais livres os caminhos Por onde em vida tanto, tanto andei. Mas o lugar que foi meu no mundo Não vagará, deixará somente De existir, como eu deixei.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

CANÇÃO INFANTIL

Ai, eu queria cair no rio E nele descer até o mar. Mas o rio tem os peixinhos O rio não me quis não.

Ai, eu queria ser uma flor Para dormir ao relento E acordar molhadinha Do orvalho da madrugada,

E devagar despertando, Abrir pétalas com preguiça Ao chamado tão doce, doce, De um morninho raio de sol.

Ai, eu queria num raio de sol Entrar um dia em teus olhos E lá chorar fundo, bem triste, mãe, Para um pouquinho ao menos Te desafogar.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

VERSOS

Beatriz Botelho Vasconcelos

VOCÊ

Todo o você que eu penso É cheio mesmo de mim. De presenças e ausências Que dentro de mim estão.

Você nunca está sozinho No foco de meu pensamento, Atrás de você vejo nítida A sombra enorme e densa Do mundo se projetando.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

I

Eu estava no pólo norte E você no pólo sul. E deitei meu corpo Sobre a terra inteira Para, de leve, tocar sua mão.

II

Que maravilha é o cheiro Que a terra toda desprende Quando ela sente o braço Das águas vindas do céu!

III

Cortando um pedaço de céu Fiz um lindo vestido azul. Mas à noite em vão procurei, Não mais vi o cruzeiro do sul.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

PALAVRAS

Olho uma for; Sua cor e sua forma Me dizem: "rosa".

Olho pra o céu; Luzinhas piscando Me dizem: "estrelas",

Olho para você E meu coração Me diz: "filho".

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Beatriz Botelho Vasconcelos

CAPRICHO

Quero matar minha sede Com as águas que vêm do céu.

Quando a primeira chuva cair Feliz me deixarei molhar Sentindo em meus cabelos E sentindo em todo meu corpo O estranho contato físico De alguma coisa vinda do céu Que passando sobre mim Na terra vais se entranhar.

Quero matar minha sede Com as águas que vêm do céu.

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NO MATO

Beatriz Botelho Vasconcelos

Corre! Corre! Corre! Aonde vou? Vou lá No mato ver, ver Um veadinho que Por aqui passou, Um veadinho ­ filhote, Um veadinho castanho E de manchas escuras Com um timburé, Um veadinho mateiro Que salta olhando pro sol Que salta olhando pra lua! Com delícia no sangue Com delícia nos olhos Ligeiro ele corre nos campos Ligeiro ele salta nos ares. Para ele as águas brotam Para ele crescem as ervas Para ele é tão fresca a sombra De baixo das velhas árvores. Corre! Corre! Corre! Aonde vou? Vou lá No mato ver as Lindas flores que Ninguém plantou, Que lá nasceram Só porque quiseram. Vou ao mato colher Cajus, araçás, gabirobas, Gravatás, imbus e pitangas Que os bichos, ai, não comeram, Que os passarinhos deixaram.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

SAINETE

Apanhei uma rosa A outra te dei. Apanhei um cravo O outro te dei. Apanhei uma dália A outra te dei.

Uma rosa na escada Um cravo na estrada E um dália à tua porta Toda pisada, Oh! Porque encontre?

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Beatriz Botelho Vasconcelos

O PASTOR

Apascentando ele ia As horas perdidas que vinham Reiteradamente Recrudescendo-lhe os dias ­ com pedidos de explicação. ­ Mais uma veio e bebeu Todo o sangue de seu sorriso ingênuo Que em desconsolo assombrado Partiu-se ao meio.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

POEMA

Navegando Um grande peixe alado Foi-se meu pensamento Pelos mares do azul. À procura da ilha Das estátuas perdidas Onde, há miríades de séculos, Um belo corpo frio Paciente por ele espera.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

PARA NINAR

A mãe d'água canta Para a filha embalar Dorme, filhinho, dorme Que eu vou cantar.

Nas ondas de minha voz Como a uma pétala de flor O sono te leva a boiar Nas águas do meu amor. A mãe d'água canta Para a filha embalar. Dorme, filhinho, dorme Que eu vou cantar.

A chuva ontem choveu A goteira logo pingou Caiu em teu rosto um pingo E meu seio todo molhou.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

NOTURNO

Cumpriu-se a promessa Das guirlandas floridas; Estão maduros Todos os frutos. Toda a venustidade da noite Pesa em seus lábios rubros ­ e ele olha uma estrela Sonhando com o corpo dela. No jardim agora invisível Fecham-se pétalas em vão Sobre incorpóreos silfos! Estão maduros Todos os frutos. E contra os seios macios da noite Morre aos poucos, letárgica, A última vaga do sonho.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

HUMANITAS

Pudesses tu que vens vindo ainda Retirar, de passagem pelos campos De minhas batalhas antigas As pequenas vitórias perdidas Nos escombros de momentos Esparsos e sangrentos De lutas silenciosas!

Pudesses tu que vens vindo ainda Colher essas flores desconhecidas Que brotavam humildes Entre garras temíveis De derrotas cruéis! E minha vida seria Como a terra fértil Como a árvore fecunda,

E minha alma te seguiria feliz, Quando com ela passasses Um dia ao meu lado.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

PALAVRINHA ESTRANGEIRA

De sua pátria escapando Por terras estranhas Em meu mundo ela adejou. E qual borboleta sonâmbula Ao despertar, perdida se encontrou,

Como a gota prateada Surpreendendo em plena seca Uma pétala acetinada Nuns lábios perplexos Bizarra ela pousou,

Sentindo com surpresa Cá no país tropical Evolarem-se no ar Mil gotas de cristal Remanescentes ainda Do inverso triste Que ela deixou.

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Beatriz Botelho Vasconcelos SEM

Passagem apenas; Onde alguém baila Ao óleo fresco E onde fundidas Todas as coisas Formam um céu

TÍTULO

Um céu apenas,

Cuja lonjura Irrevogável Entrega ao desamparo O personagem Em equilíbrio Sobre si mesmo. Apenas paisagem Onde um simples gesto Sobre si presto Concenta e cresce Como uma escada Solta no ar

Livre de qualquer Sistema, a atirar Sempre novos degraus Para a ascenação De inaudíveis passos.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

ELA

ESTÁ LÁ FORA

Fechei a casa toda E ela ficou lá fora. Na porta do terreiro O vento bate, bate, Queixa e murmura Querendo entrar

Ela está lá fora Com os olhos abertos Como os curiangos.

O luar saindo de entre Os ramos escuros da mangueira Salta pela vidraça Dentro de meu quarto.

... E ela ainda está lá fora Vendo os derradeiros lampejos Da fogueira que agoniza.

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Beatriz Botelho Vasconcelos MARIAZINHA

­ Menina, canta pra moça! Bem que ela sabe, dona, cantigas lindas, cantigas lindas que ninguém sabe. ­ Quem te ensinou menina, quem? ­ Ninguém não senhora... ­ Foi o sabiá que fez ninho na mangueira do terreiro? ­ Foi o vento seresteiro lá da roça nas serenatas do buritizal? ­ Não foi não senhora... ­ Então foi o Corguinho. Numa enfiada que ninguém sabe quando começou, ele canta emboladas que não acabam mais... Foi o Corguinho, Mariazinha? ­ Não, não foi não senhora... ­ Ela tem uma voz tão bonita, moça, mas é teimosa e não quer cantar. (E seus olhos brilham cheinhos d'água a derramar. Seu corpo magro está cansado seus pés doendo da caminhada. Seus olhos pedem carinho seu corpo quer leite e pão e uma caminha fofa com travesseiro macio cheio de lindos sonhos. Um chinelinho de couro daqueles que ao caminhar vão fazendo plac-plac ­ precisam bem os seus pés. Não, ela não quer cantar...)

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Beatriz Botelho Vasconcelos

NO MEIO DO CAMINHO... SEM PEDRAS

Parei no meio do caminho. No meio do caminho parei, E me perguntei baixinho: ­ para onde, para onde irei?

E no meio do caminho parei Sem coragem para seguir E menos para voltar, Querendo ao céu subir Sem querer a terra deixar, No meio do caminho... fiquei.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

A

PALMEIRA

Quando em desespero vejo a tempestade Até o sol, amedrontado se escondeu Abandonando às Fúrias a cidade Que desamparada, toda estremeceu.

O fogo no céu riscava lâminas finas E com estrondo desciam águas pelas ruas Formando cachoeiras nas esquinas Num ruído louco de infernais charruas.

No largo e nos quintais, dobravam os galhos As grandes árvores desesperadas. Enquanto as mais frágeis em frangalhos Caiam ao chão, entregues, desarvoradas.

Mas lá bem acima, no alto isolada, Uma enorme figura só, contra o vento, Gemia em luta heróica armada,

Brandindo aos céus sem perder alento Como uma terrível Medusa desvairada Tétricas serpentes verdes em tormento.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

DE

PASAGEM

Uns olhos falaram baixinho ao seu ouvido Numa voz macia como a voz da brisa Quando passa à tarde no jasmineiro E vai seguindo, logo esquecida, Sem ver as pétalas já sem perfumes Que desoladas cobrem o chão.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

A NOITE

Segurei-a pelos braços e pedi: Espera um pouquinho mais que Hoje me atrasei a dormir com o sol, E dormindo não te vi chegar.

Não digas: agora é tarde... Quero ver ao menos a beleza Calma de teu perfil E recostar um instante

Minha fronte que escalda Na palma fresca de tua mão. Mas ela, em silêncio mostrou

No céu, um ponto luminoso Que eu, incauta, não vira ainda, E foi seguindo serena, sem se voltar.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

CANTIGA

DE

AMIGO

Entre flores e espinhos Aqui estamos a fadejar. Pergunto a meu amigo: Quem nos virá buscar?

Pergunto a meu amigo Ele não quer responder Mas me dizem seu ais: Ele também quer saber!...

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Beatriz Botelho Vasconcelos SUAS

Elas são como as raízes Que necessitando mergulhar na terra Para sustentarem um tronco Sobem no entanto à flor, Enfraquecendo a árvore, Desprezando seivas. Seus dedos procuram afastar Cortinas de nuvens, gelosias de estrelas. E mundos azuis que Ele não pediu Para que de tão longe Lhes mostrassem. E esta agonia lenta Da tarde que morre Sem saber por quê, Do sol que segue Sem saber para onde, Deixa nelas uma compaixão enorme E uma desconfiança atormentada Que esfria seus gestos Mal esboçados, lhes retirando Todo apoio e significação.

MÃOS

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Beatriz Botelho Vasconcelos

À

MORTE

Ouço passos atrás de mim Passos ao meu lado, Passos à minha frente; Passos roçagantes, Pés que sangram em gemidos, Outros que arrastam correntes.

Todos procuram o fim de um caminho Menos os teus. Os teus Que não ouço, mas sinto (pois os sinto na alma e no corpo) E que vêm lentos, pesados e moles A perseguir a vida Cortando-a em sulcos, Com um arado louco, sem direção.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

MENSAGEM

Três andorinhas voando baixo Vieram me dizer, Vieram me lembrar Que as coisas vão mudar Que a vida como o tempo Não quer estacionar. Que mão alguma terá Nunca, poderes tais Que o possa impedir.

Três andorinhas voando baixo Vieram trazer esta mensagem Da natureza ao meu ser

**** PARACATU ­ MINAS

E

FAZENDA CASA BRANCA - GOIÁS ­ 1945.

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Beatriz Botelho Vasconcelos

Beatriz Botelho Vasconcelos

Beatriz Botelho Vasconcelos

TRASCRIÇÃO: PAULIRAN RESENDE ­ BSB, 7-MAIO-2011

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