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UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO ­ UPE/CAMPUS GARANHUNS ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE PERNAMBUCO - ALEPE ESCOLA DO LEGISLATIVO DE PERNAMBUCO - ELEPE

O VOTO DOS EVANGÉLICOS DA ASSEMBLEIA DE DEUS NAS ELEIÇÕES PROPORCIONAIS NO ESTADO DE PERNAMBUCO: uma análise do discurso político do pastor Cleiton Collins(PSC) nas eleições de 2010

CRISTIANA RODRIGUES CARVALHO

Recife ­ Pernambuco 2010

CRISTIANA RODRIGUES CARVALHO

O VOTO DOS EVANGÉLICOS DA ASSEMBLEIA DE DEUS NAS ELEIÇÕES PROPORCIONAIS NO ESTADO DE PERNAMBUCO: uma análise do discurso político do pastor Cleiton Collins(PSC) nas eleições de 2010

Monografia apresentada ao curso de pósgraduação "Lato Sensu" em Formação Política, Gestão Pública e Processo Legislativo da Faculdade de Ciências, Educação e Tecnologia de Garanhuns ­ UPE/Campus Garanhuns, em cumprimento às exigências para obtenção do título de especialista.

Orientador: Professor Mestre Clóvis Miyachi

Recife ­ Pernambuco 2010

CRISTIANA RODRIGUES CARVALHO

O VOTO DOS EVANGÉLICOS DA ASSEMBLEIA DE DEUS NAS ELEIÇÕES PROPORCIONAIS NO ESTADO DE PERNAMBUCO: uma análise do discurso político do pastor Cleiton Collins(PSC) nas eleições de 2010

Aprovada em _____/ _____ / _________

BANCA EXAMINADORA

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Professor Orientador: Mestre Clóvis Miyachi

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Professor Examinador:

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Professor Examinador:

AGRADECIMENTOS

À Deus por ter me dado a vida, saúde e coragem para lutar pelos meus objetivos.

Ao meu esposo Marcel e aos meus filhos Heitor e Catharine pelo amor que sempre me proporcionaram.

Aos meus pais e irmãos que me apoiaram durante toda a minha vida.

Ao meu orientador professor Clóvis Miyachi, pelo apoio, dedicação, e paciência na realização deste importante trabalho.

Aos meus amigos de sala de aula, pela amizade e pelos debates que permitiram uma maior aprendizagem.

Ao gabinete do deputado pastor Cleiton Collins pelo apoio na pesquisa.

Aos professores da UPE, Campus Garanhuns, pelos ensinamentos.

Aos funcionários que fazem a Escola do Legislativo por estarem ao nosso lado durante todo esse tempo de aprendizado.

E novamente, a Deus por ter pessoas tão queridas ao meu redor.

"Esse crescimento das denominações evangélicas no Brasil modificou o padrão dissimulado de se fazer política dentro das igrejas, mas, o fato é de que, se deve relativizar seu peso eleitoral e a força do clientelismo religioso". Regina Novaes, Le Monde

RESUMO

O presente trabalho de pesquisa resulta da análise do crescimento do voto evangélico em Pernambuco, com ênfase na atuação do deputado estadual Cleiton Collins, do Partido Socialista Cristão, que nas duas últimas eleições, de 2006 e de 2010, foi o parlamentar mais votado do Estado. Totalizou nos dois pleitos 226 mil 762 votos pernambucanos, que o elegeram como representante oficial da Igreja Assembléia de Deus junto ao governo do Estado. Este levantamento de dados pretendeu revelar que mecanismos foram utilizados pelo pastor Cleiton Collins para conquista e cristalização do voto junto ao seu público, que são as famílias evangélicas, e seu discurso voltado exclusivamente para as mães de drogados e viciados. Estudamos que linguagens e imagens foram utilizadas para atrair e persuadir esses eleitores no ato decisivo de votar, diante das urnas. Algumas hipóteses foram analisadas, à luz dos grandes educadores: se o fato de ser comunicador facilita a sua conquista junto aos eleitores, se os meios de comunicação foram utilizados durante a campanha eleitoral e, por fim, que elementos estão inseridos em seu discurso que atraem essa massa, cada vez mais representativa, de seguidores. A sua dramática história de vida também foi estudada e comparada às teses de grandes analistas em discursos políticos ­ religiosos. A intenção foi detectar os mecanismos de linguagem que sensibilizam o público-alvo pretendido, os eleitores evangélicos. Com a defesa de conceitos hegemônicos e ao mesmo tempo antagônicos que solidificam as preleções do parlamentar. Baseado em uma revisão bibliográfica, este estudo discute também a relação existente entre religião e política, a criação de discursos políticos ­ religiosos, além das técnicas de comunicação utilizadas para a conquista e cristalização do voto evangélico da Igreja Assembléia de Deus, pelo pastor Cleiton Collins. Alguns especialistas fazem uma previsão do futuro político brasileiro, analisando a participação dos evangélicos nesses espaços públicos.

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO... .............................................................................................. 08

2. O VOTO EVANGÉLICO 2.1. O crescimento da Igreja Evangélica .............................................................. 11 2.1.1. Relação entre religião e política ................................................................. 13 2.1.2. A religião evangélica e os meios de comunicação ..................................... 13 2.2. A queda da Igreja Católica ............................................................................ 19

3. O PASTOR CLEITON COLLINS 3.1. O perfil na mídia ............................................................................................ 24 3.3. Entrevistas com o pastor ............................................................................... 29 3.4. A campanha de 2010 .................................................................................... 35

4. O DISCURSO POLÍTICO-RELIGIOSO 4.1. O discurso do pastor e a cristalização do voto evangélico ............................ 37

6. Conclusão ........................................................................................................ 41

6. Fontes .............................................................................................................. 41

7. Anexos ............................................................................................................. 43 7.1. Material de campanha do pastor Cleiton Collins ........................................... 38 7.2. Matérias veiculadas no Diário Oficial............................................................. 38 7.3. Requerimentos, projetos de lei e emendas ................................................... 39

8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................. 45

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1. INTRODUÇÃO: Esta monografia resulta da pesquisa sobre o crescimento do voto evangélico em Pernambuco, com ênfase na atuação do deputado estadual Cleiton Collins, do Partido Socialista Cristão, que nas duas últimas eleições, de 2006 e de 2010, foi o deputado estadual mais votado de Pernambuco. Totalizou nos dois pleitos 226 mil 762 votos de votos pernambucanos, que o elegeram como representante oficial da Igreja Assembléia de Deus junto ao governo do Estado. A justificativa da escolha desse tema é a crescente participação de evangélicos na política pernambucana, fato que vem ganhando mais adeptos nos últimos dez anos. Esse cenário local é um pequeno retrato do que acontece no Brasil, com fortalecimento da Bancada Evangélica no Congresso Nacional, bem como do reflexo das representações municipais. A estimativa segundo o Censo, que está terminando nova sondagem nesse ano, é que esse percentual some mais de 55 milhões de brasileiros, 28,7% da população. Em Pernambuco esse quantitativo chega a 30%. (Censo, 2007) O curioso é que a nomenclatura de pastor já está incorporada ao nome de Cleiton Collins. Fato facilmente comprovado nas placas de sinalização na Assembléia Legislativa, nos sites oficiais e em todas as publicações impressas e entrevistas realizadas pela instituição. Em 2006, o deputado conseguiu 89.585 votos. Já nas últimas eleições, em 2010, o número de fiéis cresceu significativamente para 137mil 157 votos. Ele utilizou como ferramentas de campanha várias estratégias como adesivos para carro, banner, jingle, toque para celular, praguinhas e até marcadores para serem utilizados pelos evangélicos enquanto manuseassem suas bíblias(anexo1) Sem dúvida, seu diferencial está no discurso político, que tem como tema principal o combate às drogas, ao crack. O público-alvo trabalhado exaustivamente são as famílias dos drogados. Das matérias veiculadas no Jornal do Commércio, Diário de Pernambuco e Diário Oficial, no período de 2007 a 2010, que enfatizou seus discursos como parlamentar, pelo menos 90% referem-se ao universo das drogas (anexo 2). Inclusive, em seu jingle de campanha foi editado um depoimento sobre a necessidade de se combater o uso de drogas no Estado. "Tudo isso é fruto de quatro anos de muito trabalho, oportunidades que Deus vem abrindo. Fiz o projeto de lei que estabelece a fixação de placas nos grandes eventos públicos alertando sobre o mal que as drogas

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fazem, lutei pela abertura de um conselho estadual capaz de receber verbas federais principalmente no combate ao crack", disse Collins em sua primeira entrevista após a vitória das urnas, para o portal do IG, no dia 04 de outubro, às 17h05. Foram apresentados pelo pastor 19 projetos de lei, entre eles, foi aprovado o de nº 1051/2009 que "torna obrigatório a inserção de mensagens educativas sobre o uso de drogas e substâncias entorpecentes, durante a realização de shows, eventos culturais e esportivos, voltados para o público infanto-juvenil". Outro projeto de lei que chama atenção é o 1578/2010 que "dispõe sobre a criação de um Programa Educacional de Resistência às Drogas", entre outros. (anexo 3) Outro fator muito importante é que o pastor tem um "dom" a mais. Elogiado pelos meios de comunicação, blogueiros e jornalistas, o comunicador nato trabalhou muitos anos como radialista e até os dias de hoje mantém seus programas na Rádio Maranata, das 10h às 12h, com duração de duas horas. Nesse universo, há uma expansão dos trabalhos para a TV Nova, que é veiculado com mais de três horas de duração, todos os domingos, ao vivo. Nesse espaço, o comunicador, pastor e deputado entram em cena, garantindo um espaço com grande abrangência para pregar, propagar suas idéias, persuadir, envolver e contribuir com os seus "ensinamentos". A sua história de vida também sensibiliza as pessoas, por ser recheada de acontecimentos tristes e simbolizar junto aos crentes a superação das dificuldades e assemelharem-se as narrativas que são pregadas nos espaços evangélicos. (ver perfil do pastor Cleiton Collins) Este trabalho pretende revelar que mecanismos foram utilizados pelo pastor Cleiton Collins para conquista e cristalização do voto junto ao seu público, que são as mães, as donas de casa, as esposas. Estudamos que linguagens e imagens foram utilizadas para atrair e persuadir esses eleitores na hora decisiva do voto. Algumas hipóteses foram analisadas, à luz dos grandes educadores: se o fato de ser comunicador facilita a sua conquista junto aos eleitores, se os meios de comunicação foram utilizados durante a campanha eleitoral e, por fim, que elementos estão inseridos em seu discurso que atraem essa massa de seguidores. E analisar, baseado em referenciais teóricos e bibliográficos, se a sua história de vida também é determinante para sensibilizar o eleitor.

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A questão incita outros questionamentos: como explicar a recorrência deste tema, em eleições democráticas, no início do século XXI? Que poder esses fiéis tem nas mãos e de que forma essa massa está sendo conduzida? Que linguagens de comunicação estão sendo utilizadas para garantir o sucesso nas urnas? Há uma tendência brasileiras? A metodologia utilizada consiste em pesquisa bibliográfica sobre o tema em pesquisa documental. Coleta de dados nos jornais Jornal do Commércio, Diário de Pernambuco e Diário Oficial sobre a atuação do deputado. Pesquisa nos sites e blogs setoriais, o que multiplica naturalmente as informações veiculadas pelo líder religioso. Entrevista com o pastor Cleiton Collins, além da reunião de dados referentes à sua campanha eleitoral de 2010, como forma de comparação e de interpretação dos dados. O presente trabalho está dividido em quatro partes. Na primeira parte, a fundamentação teórica e a análise do crescimento das denominações evangélicas em cenários políticos locais; na segunda, a diminuição do espaço católico; na terceira, o perfil divulgado nos espaços de comunicação pelo pastor Cleiton Collins, seu discurso para a obtenção e cristalização do voto, sua relação com os meios de comunicação, entrevistas e as técnicas de marketing utilizadas em sua campanha de 2010. Na quarta parte, fundamentos sobre discurso político-religioso com o intuito de incitar questionamentos sobre o futuro político pernambucano e brasileiro ao levar em consideração o crescimento da Bancada Evangélica no Congresso Nacional. Por fim, as considerações e informações complementares. ao crescimento dessa representatividade nas instituições políticas

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2. O VOTO EVANGÉLICO

2.1. O CRESCIMENTO DA IGREJA EVANGÉLICA

De um modo geral, os candidatos evangélicos professam Jesus Cristo, como seu cabo eleitoral. Sem dúvida, um forte e persuasivo aliado. Em alguns casos, utilizam a fé das pessoas para angariar votos, ou em uma relação, mais próxima, criam uma espécie de catarse e os seguidores, ávidos por terem seus desejos realizados e atendidos pelo "Mestre Maior" acabam por transferir o voto de confiança para a figura do líder religioso, do pastor. Uma relação de confissão, de confiança e de aconselhamento. É o voto dos evangélicos, e claro, em nome do Senhor! São inúmeros os casos relatados pelos pastores e presbíteros. Superação de dificuldades, libertação das drogas e dos vícios, reveses financeiros, além de provocarem na mente de seus seguidores uma espécie de "visualização" da salvação do mundo. Temas polêmicos invadem os cultos religiosos partidários, como as drogas, o homossexualismo e o aborto. Prova disso foram as eleições majoritárias, na qual o Brasil assistiu, pela primeira vez, em sua história eleitoral, a uma onda evangélica que interferiu nas questões da política nacional.1 Assuntos que no ano de 2010 roubaram a cena, como união homossexual e o aborto, decidindo as eleições presidenciais. Os pastores até se auto-intitulam "designados de Deus" para desempenharem uma missão na Terra. E justificam suas atitudes baseados nos preceitos bíblicos. Assim, esse discurso político unificado em busca da cristalização do voto tem atingido todas as estratificações do poder, seja no âmbito federal, estadual ou municipal. Ainda contando com uma população majoritariamente católica, não é novidade que o Brasil, vem assistindo, nos últimos dez anos, a um implacável crescimento no número de evangélicos ­ segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 16% dos brasileiros são protestantes. Esse fenômeno é explicado pelo surgimento a todo instante de um novo templo. Igrejas como Universal Reino de Deus ­ IURD, Assembléia de Deus, Batista, entre tantas outras vão se

1 - "Infame mistura no púlpito evangélico" ­ O Globo ­ 18/08/2004

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popularizando graças à presença maciça dos meios de comunicação. A maioria delas possui emissora ou mesmo redes de TV e rádio.2 O passo seguinte no processo de inserção ­ e consolidação ­ dessa corrente religiosa vai além da procura por seguidores. Mais do que simples fiéis, os protestantes arrebanham eleitores. E, como resultado conquista mais e mais espaços no poder público. No dia 10 de setembro de 2010, o papa Bento XVI, durante encontro no Castelo Gandolfo, a 30 quilômetros de Roma, comentou o crescente abandono de fiéis da Igreja Católica Brasileira e a rápida expansão das comunidades evangélicas e

neopentescostais. Para ele, esse fenômeno se deve a "uma evangelização a nível pessoal e superficial".

"Se observa uma crescente influência de novos elementos na sociedade, que até poucas décadas não existiam. Isso provoca um crescente abandono por parte de muitos católicos da vida na Igreja, enquanto o panorama religioso brasileiro assiste à rápida expansão das comunidades evangélicas e neopentecostais".3 (Bento XVI. www.gospeledeovelha.com. 10 de setembro de 2010, às 10h30).

O papa acredita que esses católicos convertidos recentemente "não são suficientemente evangelizados, porque são facilmente influenciáveis, possuindo uma fé frágil e baseada em devoções ingênuas". Pediu como solução, que a Igreja Católica se empenhe na evangelização e não poupe esforços na busca de católicos que se afastaram ou de pessoas que conheceu pouco ou nada da mensagem evangélica.

"Diante do desafio da multiplicação incessante de novos grupos, onde às vezes se faz uso de um proselitismo agressivo é necessário reforçar o diálogo ecumênico" 3

As duas principais correntes protestantes inseridas no meio político, a IURD e a Assembléia de Deus, possuem suas coordenações políticas nacionais e regionalizadas, tal como os partidos políticos. E com a organização desses setores internos, definem, em cada Estado, quem são seus quadros com mais chances de terem sucesso na

2 . Isto É, reproduzidas, 1995, pág.160 3 Bento XVI. www.gospeledeovelha.com. 10 de setembro de 2010, às 10h30)

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disputa das urnas. São as igrejas que determinam quem serão seus candidatos, seus legítimos representantes.

2.1.1. Relação entre religião e política

Em todos os tempos uma máxima que sempre se ouviu, vinda do imaginário popular, foi que religião e política não se misturam. Esteve por muitos anos em frases feitas e retóricas de políticos e líderes religiosos. Mas, pelo menos na última década essa realidade tem se transformado. Uma onda crescente de fiéis e seguidores da Igreja Evangélica, especificamente da Assembléia de Deus, tem ido às urnas, e eleito, com maioria de votos, representantes desta religião. Segundo artigo de Regina Novaes, publicado no jornal francês Le Monde, em 01 de abril de 2005, "esse crescimento das denominações evangélicas no Brasil modificou o padrão dissimulado de se fazer política dentro das igrejas, mas, o fato é de que, se deve relativizar seu peso eleitoral e a força do clientelismo religioso". "Não há nada mais político do que dizer que a religião nada tem a ver com a política", diz o bispo sul-africano Desmond Tutu, prêmio Nobel da Paz. Frei Betto, em seu livro Mosca Azul, no capítulo 31º, relata a relação existente entre os dois conceitos:

"Na América Latina, não se pode separar fé e política, assim como não seria possível fazê-lo na Palestina, do século I. Na terra de Jesus, detinha o poder político quem tinha em mãos também o religioso. E vice-versa. Talvez soasse estranho, hoje, a certos ouvidos introduzir a leitura do Evangelho falando dos atuais chefes do Estado. O argumento do estudioso baseia-se nas escrituras bíblicas. Ao iniciar o relato da prática de Jesus, Lucas primeiro a situa no contexto político e informa que "já fazia quinze anos que Tibério era imperador romano. Pôncio Pilatos era governador da Judéia, Herodes governava a Galiléia e seu irmão Felipe, a região da Ituréia e Traconites. Lisânias era governador de Abilene. Anás e Caifás eram os presidentes dos sacerdotes" (3, 1-2).

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Frei Betto pontua vários episódios que retratam a estreita relação da fé com a religião. "Foi sob o símbolo da cruz que a colonização ibérica da América Latina promoveu o genocídio de milhares de indígenas e o saque das riquezas naturais; sob a silenciosa cumplicidade da Igreja Católica, negros foram trazidos da África como escravos; com a convivência das Igrejas cristãs, instalou-se em nossos países o sistema burguês de denominação capitalista; entre outros momentos da história político-religiosa brasileira".

"O fato de fé e política estarem sempre associadas em nossas vidas concretas, como seres sociais que somos ­ ou animais políticos, na expressão de Aristóteles, não deve constituir uma novidade senão para aqueles que se deixam iludir por uma leitura fundamentalista da Bíblia, que pretende desencarnar o que Deus quis encarnado...a fé é um dom politicamente encarnado, que se justifica nessa conflitividade histórica, na qual somos chamados, pela graça, a distinguir o projeto salvífico de Deus". (Frei Betto, Mosca Azul, 1994. Cap. XXXI. Pág. 286)

Para o cientista político e bispo da Igreja Anglicana no Nordeste, Robinson Cavalcanti,44 os concorrentes nas eleições ainda não se deram conta do potencial dos evangélicos. Segundo ele, em entrevista ao Diário de Pernambuco, do dia 07 de outubro de 2010, os candidatos precisariam perceber o peso desses eleitores e os valores históricos que eles levam consigo. "Estamos num momento de compreensão desses novos paradigmas e, quem não se der conta disso, sairá prejudicado da eleição. Para mim, o discurso que sensibiliza o eleitorado é o que caminha para o socialprogressista e de uma lógica moral conservadora". Robinson lidera cerca de 5 mil membros de 47 igrejas ligadas à sua diocese. É ex-coordenador do mestrado de Ciências Políticas e ex-diretor de Filosofia da UFPE. Para o sociólogo Paul Freston, que estuda o papel dos evangélicos na política desde os anos 80, não existe um voto evangélico coeso. Uma coisa, diz ele, é o discurso de líderes evangélicos. Outra é examinar a maneira de o evangélico comum votar. "Não é um voto de cabresto. Mesmo quando o pastor é candidato e toda a igreja

4 . Diário de Pernambuco ­ 07 de outubro de 2010 5.Estudioso de política, cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco

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é mobilizada para votar nele, há casos de derrota fragorosa45. Os membros parecem estar obedientes, mas não estão", defende acrescentando: "estamos falando de pessoas que são cidadãos comuns, que têm sua inserção na sociedade. Elas levam em consideração fatores pessoais, profissionais, de família, de classes". Freston é professor da Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo e da Balsillie School of International Affairs, no Canadá. Na opinião do sociólogo Alexandre Brasil Fonseca66, se há coesão, ela vem não do fato de serem evangélicos, mas sim dos outros elementos que definem a identidade dos grupos, como origem social e capital cultural. "O espectro evangélico é amplo e inclui diversas tendências e opiniões", declara Fonseca que é diretor do Nutes ­ Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "O fato de os fiéis estarem numa igreja e falarem `amém' para um pastor não deve ser visto como uma adesão integral". Conforme o levantamento do cientista político Antonio Lavareda, o segmento evangélico representa 25% do eleitorado brasileiro e na avaliação do estudioso, a influência dos líderes religiosos sobre os fiéis é maior no caso dos evangélicos. "Pesquisas têm apontado que o contingente evangélico tem maior capacidade de ser influenciado pelos seus bispos e pastores do que o contingente dos católicos",defende. Lavareda compara os dois segmentos religiosos: "temos 62% do eleitorado se dizendo católico, mas padres e bispos da igreja estão longe de terem a influência que os pastores evangélicos têm". O estudioso é especialista no estudo de processos eleitorais e foi consultor de comunicação nas candidaturas presidenciais de Fernando Henrique Cardoso. Ele diz que a sociedade brasileira é eminentemente religiosa e que o circuito das igrejas sempre foi um instrumento fundamental nas agendas de campanha. "Todos os candidatos precisam interagir com as igrejas, freqüentar os templos, ser apresentados por padres e pastores aos eleitores. É um ingrediente típico na disputa", assegura. Esses estudiosos, quando questionados sobre o debate moral e o discurso conservador, foram unânimes. Para o diretor do Nutes, "o posicionamento em relação a

6 . Diário de Pernambuco ­ 07 de outubro de 2010

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temas sensíveis pode ser decisivo para parte dos evangélicos. Para este eleitorado, a questão moral tem significativo peso e centralidade na definição do voto". Paul Freston diz que, no Brasil, os eleitores não costumavam decidir o voto com base em uma única questão, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos. "No Brasil, historicamente, os evangélicos não votam assim, outras questões têm uma importância maior. Ainda é cedo para afirmar, mas isso pode estar mudando", afirma o sociólogo. Frente a estas virtualidades, como avaliar o impacto do chamado "voto evangélico" na cultura política brasileira? Não podemos negar que hoje no Brasil existe um certo tipo de "clientelismo religioso" que nos afasta da idéia de cidadania pressuposto da República laica, presente nos compêndios de ciência política. Contudo, é preciso lembrar sempre dois aspectos. Em primeiro lugar, vale destacar que, independentemente dos feitos dos "evangélicos", o sistema partidário brasileiro é inconsistente e frágil favorecendo migrações motivadas por interesses pessoais, fortalecendo a infidelidade partidária. Um caso que bem ilustra esse argumento é do exgovernador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, PDT, que num curto intervalo de tempo passou por três partidos políticos. Em segundo lugar, no que diz respeito aos eleitores, não foram os evangélicos que chegaram e lograram desmanchar sólidas e generalizadas práticas de participação democráticas pré-existentes. Assim, sem idealizar a história política brasileira, talvez possamos indagar se, paradoxalmente, tal "clientelismo religioso" acima citado é necessariamente equivalente ou pior do que o que historicamente ficou conhecido como "clientelismo político": Uma prática que pressupunha a manutenção do "curral eleitoral", um coronel que trocava de voto por proteção e/ou dinheiro em cenários compostos por distintas formas de violência simbólica e até física. Os vínculos propostos pelos pastores evangélicos estão ancorados em crenças e mecanismos de convencimento religioso. Coagir ou cobrar o voto pode colocar em risco a adesão à Igreja. Até mesmo porque há muitas e simultâneas ofertas: algumas pesquisas mostram que "não satisfeitos" os fiéis mudam com facilidade de "pastores", de templos e mesmo de denominações. A combinação entre uma acirrada e crescente concorrência por fiéis e (infelizmente) um sistema partidário que favorece a rotatividade e alianças torna-se, assim, um antídoto para as

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temidas possibilidades de intolerância religiosas, repaginadas, é claro, de ideais políticos. Em Pernambuco, nas três últimas eleições, o segmento evangélico elegeu os campeões nas disputas pelo poder Legislativo. Em 2010, o deputado estadual Pastor Cleiton Collins, do PSC, foi o mais votado, com 137.157 votos. Ele repetiu o sucesso das eleições em 2006, quando assumiu seu segundo mandato com 89.586 votos. O segundo mais votado para ocupar um cargo na Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco foi o Presbítero Adalto, do PSB, com 120.175 votos. Em 2008, André Ferreira, do PMDB, conquistou o segundo mandato para a Câmara do Recife com 15.117 votos. Ambos são oriundos da Assembléia de Deus. Um fato que contribui para que o Estado seja conhecido como o detentor do maior percentual de evangélicos do Nordeste, entre 20% e 25% da população.(IBGE ­ 2010) O novato nas eleições de 2010, Presbítero Adalto, do templo central da mesma igreja de Collins, revelou que não esperava o resultado. "Fiquei surpreso. Foi a primeira vez que o pastor presidente da Assembléia de Deus, Aílton José Alves, abriu essa possibilidade de representar a igreja em eleições", afirmou. Essa realidade consagra a estratégia eleitoral da Assembléia de Deus nas eleições. Tanto Adalto quanto Pastor Eurico, do PSB, quinto colocado na disputa à Câmara Federal- são os primeiros postulantes "oficiais" lançados pela igreja em um pleito. A Frente Parlamentar Evangélica no Congresso Nacional encolheu para o período de 2011 a 2014. Eram mais de 40 parlamentares até a atual legislatura. No novo período que começará no ano que vem, não deverá passar dos 30 parlamentares. Apenas a supremacia da "Bancada Assembleiana" foi mantida, aliás, realçada com o aumento. Eles cresceram na Casa Joaquim Nabuco ao saltarem de três para cinco deputados estaduais. Juntos, respondem hoje por 366.777 votos e formam a bancada evangélica da Assembleia. Na união em torno da Frente Parlamentar da Família, viram um meio de garantir espaço e ´força oficial`, como define o líder do grupo, o pastor Cleiton Collins (PTC). ´A bancada evangélica não tem representação constitucional. Já

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com a Frente passamos a ter direitos e ganhamos espaço para discutir e enfrentar questões polêmicas`, argumentou.7 A Frente da Família atende à representação do segmento evangélica e, como consequência, já anunciou que vai se contrapor à Frente LGBT, aprovada nesta semana sob forte resistência da bancada dos cinco deputados. Porém, não são apenas eles. A Frente da Família também conta com a participação de parlamentares assumidamente católicos como o deputado Eriberto Medeiros (PTC). Collins levantou ainda um outro porquê para a criação dessa Frente, e este sem conotações religiosas. Segundo ele, toda a bancada evangélica é composta por governistas, enquanto a Comissão de Cidadania, responsável pelos temas sociais, é presidida por Betinho Gomes (PSDB), da oposição. Sem a Frente, as propostas vindas de parlamentares do grupo poderiam ser barradas na comissão por questões ´meramente políticas`. As duas frentes também foram criadas na legislatura passada. A LGBT tinha a liderança de Isaltino Nascimento (PT), atualmente secretário estadual de Transportes. Ele relembra, apesar de tratar questões polêmicas como união homofóbica, o diálogo foi permanente entre elas, não havendo o tumulto presenciado na Assembleia nesta semana. ´Eu fazia parte das duas frentes, porque acredito que qualquer forma de preconceito está ultrapassado`, disse. Na análise do sociólogo e cientista político Délio Mendes, o embate entre conservadores e progressistas é histórico. ´Questões de comportamento sempre foram motivo de discussão, desde a Idade Média. Considero importante que secriem essas Frentes para que tenhamos uma sociedade saudável e democrática. O estado é laico e por isso cabe dentro dele posições antagônicas.

7 . Diário de Pernambuco ­ 03 de março de 2011

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2.1.2. Religião e os meios de comunicação

Certamente os católicos também estão nos meios de comunicação, mas a segmentação e a autonomia das denominações protestantes históricas e pentecostais favorecem o uso ágil e simultâneo de tais meios. Mesmo sem intenção ecumênica de cooperação ou diálogo entre denominações, do ponto de vista dos receptores, e no âmbito geral, umas favorecem as outras e o conjunto ganha mais visibilidade. Todos os segmentos religiosos podem ter sua representação política, envolvendo-se diretamente no processo eleitoral, com exceção da Igreja Católica que proíbe a participação políticoeleitoral dos sacerdotes. Segundo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ­ CNBB ­ os sacerdotes não podem fazer parte de partidos ou se lançar candidatos. O veto está expresso no Código de Direito Canônico, de 1983, num conjunto de regras que tem o objetivo de nortear a ação dos religiosos.

"Perguntar se o espírita pode ser político é a mesma coisa que perguntar se o homem pode ser político, porque a condição espírita não o difere das outras pessoas, nem o coloca em um grau especial ou superior em relação aos outros homens". 8

Os efeitos deste processo de conversões religiosas que mudam a vida privada chegaram ao espaço público. A visibilidade dos evangélicos na política aconteceu pósditadura militar, chegou junto com a reformulação da Constituição Brasileira (1988). Evangélicos de denominações diferentes uniram esforços para que nova Constituição não privilegiasse os católicos no que tange ao calendário, ao uso dos espaços públicos e à legislação que regula a filantropia. Na ocasião, elegeram 32 deputados federais que - a partir de um espectro amplo de diferentes partidos políticos - formaram a "bancada evangélica". Na legislatura de 1990 tiveram menor êxito, mas nas seguintes viram crescer seus congressistas. Em 1998 foram eleitos 43 parlamentares evangélicos, só a Igreja Universal do Reino de Deus elegeu 15 representantes federais, além de 26

8 Wanderley Pereira. O Espírita e a Política ­ www.gepe.org.br ­ de 28.03.2006, às 17horas

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deputados estaduais em 17 estados e no Distrito Federal chegando hoje a 62 deputados federais, 18 deles da Igreja Universal do Reino de Deus. A chamada "bancada evangélica" não tem unidade partidária ou ideológica, ela tem funcionado para votar questões coorporativas, isto é consideradas "de interesse evangélico" em um país de cultura católica, ou questões morais (aborto e casamento de homossexuais, principalmente) momento este em que se aliam com uma parte de deputados católicos ou espíritas Kardecistas. A Frente Parlamentar Evangélica no Congresso Nacional encolheu para o período 2011-2014. Eram mais de 40 parlamentares até a recente legislatura, o número para começar em 2011 não deve ultrapassar a casa dos 30 parlamentares. Apenas a "Bancada Assembleiana", por assim dizer, teve aumento. Na legislatura de 2003-2006, ocorreu o recorde de deputados federais assembleianos eleitos: 22. Na legislatura seguinte (2007-2010), esse número caiu drasticamente para 5 deputados federais. Atualmente, após o pleito de 3 de outubro, houve um significativo aumento: haverá 12 deputados federais assembleianos. Com o ataque à descriminalização do aborto e ao casamento gay como bandeiras, a bancada evangélica aumentou sua participação no Congresso Nacional em quase 50%. A participação de bispos, pastores e integrantes das igrejas evangélicas conquistou o mesmo número de parlamentares do PSDB. Só perde, atualmente, para as bancadas do PT e do PMDB, partidos com o maior número de integrantes no Congresso. Levantamento feito pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar ­ Diap ­ registra a reeleição de 32 dos 45 parlamentares da bancada e a eleição de mais 34 integrantes de igrejas evangélicas com a supremacia da Assembléia de Deus à frente. A bancada agora conta com 63 deputados e 3 senadores. Os números mostram que a bancada evangélica reverteu o desfalque sofrido nas eleições há quatro anos e que interrompeu um crescimento iniciado nos anos 80. A bancada mingou na eleição de 2006 em decorrência do envolvimento de parte de seus integrantes nos escândalos do mensalão e da máfia dos sanguessugas. Esse último flagrou parlamentares no esquema de compra de ambulâncias por preços superfaturados.

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2.2. A queda da Igreja Católica

No Brasil, desde o final do século XIX, houve uma cristalização da Igreja Católica, como referência ideológica-republicana, repassando a impressão de que era a religião oficial do povo brasileiro. Religião dominante, sem concorrente à altura para competir com sua total influência política. Na história do Brasil Real encontram-se inúmeros fatos surpreendentes em termos de perfil ideológico de candidatos e partidos. Vários segmentos envolvidos: instâncias da Igreja Católica, denominações evangélicas, líderes de religiões espíritas kardecistas e afro-brasileiras participaram ativamente das eleições sem enfraquecer, entretanto, a comunidade religiosa, sem colocar em risco a razão de ser e as convicções do ser humano. A partir da Proclamação da República, com a separação entre a Igreja Católica e Estado, os evangélicos, tal como outras igrejas protestantes, aceleraram suas atividades expansionistas. Com o direito de se constituírem em associações religiosas nacionais, garantido na constituição republicana, redobraram a quantidade de igrejas e estabelecimentos educacionais no país. Esses fatores deram às práticas evangélicas tonalidades agressivas, exteriorizadas principalmente no ataque à religiosidade católica e aos hábitos culturais da população. O histórico discurso comportamental não ficou circunscrito aos seus adeptos e sim divulgado em veículos de comunicação, para ser lido, debatido, sentido. A utilização da imprensa laica, como forma de espraiar sua moralidade, intensificou-se nas cidades que vivenciaram processos de urbanização. Em outras palavras, a interferência das autoridades religiosas garantiu, no decorrer da história, fluxos e vasos comunicantes para promover as "misturas" institucionalmente não-comprometedoras entre religião e política. Muitas manchetes e títulos em edições de jornais, sites políticos, blogs especializados, revistas brasileiras e internacionais retrataram essa realidade. Algumas delas: "Milagres das multiplicações de votos"(Le Monde Dominique, abril, 2005); "Bancada evangélica no Congresso Nacional"(Blog Político, outubro, 2010); "Bento XVI preocupado com voto evangélico (Blogospeledeovelha,setembro, 2010); "Edir Macedo pede iluminação às pessoas na hora do voto" (Mundo Cristão, outubro, 2010); "Evangelho segundo os políticos"(Revista Veja, junho, 2004); "Política em cena com Pastor" (Jornal O Dia, 27 de agosto de 2004);

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"César: Conde e Crivella usam o nome de Deus pra manter eleitor cativo" (IG 26/8/2004); "Infame Mistura no Púlpito Evangélico"(O Globo18/08/2004); "Não misturo Religião com Política diz Crivella" (Jornal do Brasil 24 de setembro de 2004); "Guerra por votos Evangélicos " (O Dia, 11 de outubro de 2004); "Bittar condena mistura de religião com política" (O Dia, setembro ,2004); "Pastor anima evento tucano na RMR norte" (Diário de Pernambuco, outubro, 2010); "Bispo parte para o confronto", (Folha de Pernambuco, outubro, 2010); "Pastores aderem à campanha do PT", (Diário de Pernambuco, outubro, 2010); "Dilma conquista apoio da Universal" (Jornal do Commércio, outubro, 2010); "Evangélicos pregam contra petistas", (Diário de Pernambuco). Dados estatísticos comprovam esse crescimento da participação de líderes religiosos nas instâncias de poder, nas instituições públicas e nas repartições governamentais. Com o dom da comunicação, interagem com os fiéis, incitam polêmicas, induzem decisões, polemizam antigos tabus e dogmas da sociedade brasileira, como o uso de drogas, o homossexualismo, o aborto, entre outros temas. O mais comentado vídeo do pastor Paschoal P. Junior pastor da Primeira Igreja Batista de Curitiba, faz críticas ao PT e a todos os membros de sua igreja, bem como pede para os internautas para não votarem em nenhum candidato do partido dos Trabalhadores. O vídeo foi assistido por mais de 1,5milhões de pessoas. Conseqüentemente, os internautas vinculados ao partido voltaram-se contra a postura desses líderes religiosos. O produto final foi a redação de uma carta de repudio, amplamente divulgada na internet. "O ser humano é religioso, como biológico, psicológico e social. Não tem como separar uma coisa da outra", defendeu o pastor carioca Silas Malafaia, em seu vídeo divulgado na internet, pelo YouTube, em outubro de 2010, intitulado "A verdade sobre o 2º Turno das Eleições 2010"9 Estudo realizado pelo mestrando da Universidade Estadual Paulista, Vasni de Almeida, descreve que os metodistas fazem parte do que a historiografia e a sociologia das religiões convencionaram chamar de "evangélicos tradicionais", dada a sua estreita 9 (http://www.youtube.com/watch?v=lcHDPtAI3uk).

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aproximação com os protestantes reformadores do século XVI. Simplificadamente, podemos visualizar os protestantes brasileiros em três grupos: os tradicionais, os pentecostais e os neopentecostais. No primeiro grupo destacam-se os luteranos, presbiterianos, batistas, congegacionistas, anglicanos e metodistas; no segundo, a Igreja Assembléia de Deus, a Congregação Cristão do Brasil para Cristo e a Igreja Avivamento Bíblico; no terceiro, a Igreja da Graça, a Igreja Deus é Amor e a Universal do Reino de Deus.

"Reiteramos que se trata de um levantamento arbitrário, pois um levantamento mais detalhado listaria uma quantidade significativa de outras denominações e muitas comunidades apareceriam" (Vasni de Almeida, pág 01. Dissertação de Mestrado "CONVERTER, ENSINAR E CONFORMAR: a missão metodista em Ribeirão Preto (1986-1990)

Segundo dados estatísticos oficiais, segundo o IBGE de 2010, década após década, a Igreja Católica foi perdendo uma parte significativa de seus fiéis: em 1980, 88% da população se declaravam "católica", em 1991 eram 83% e em 2000 chegou-se a 73,9%. Um destaque para a década de 90: há o surgimento de um grupo que se autodefine como "sem religião", que subiu de 4,7% em 1991 para 7,4% para a década seguinte. No decorrer das três últimas décadas, a transferência dos fiéis se deu para as correntes evangélicas, sobretudo pentecostais. Há dez anos os evangélicos representavam 13,5 milhões em todo o território nacional, 9,1%. Hoje, eles são 26,2 milhões, 15,5%. Este crescimento é um fenômeno relevante em duas dimensões fundamentais, a estatísticas e a política. Nos anos 90, a densidade deste fenômeno foi muito comentada. Uma pesquisa do Instituto de Estudos da Religião mostrou que no grande Rio de Janeiro, entre 1990 e 1993, foram fundados cinco novos templos evangélicos por semana, um por dia útil. O crescimento do número dos adeptos vinha acompanhado da densidade da participação semanal às reuniões de culto (85% dos fiéis pentecostais; a freqüência mensal atingindo 94%). E, como mostrou posteriormente o Censo de 2000, o Rio de Janeiro não era uma exceção.

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Os evangélicos, segundo Vasni de Almeida,10 que já tiveram seus momentos de glória na mídia, na atualidade, concentram suas forças em construir teologias com o intuito de formar arcabouços doutrinários, já que estão preocupados em manter identidários os valores religiosos e culturais de seus fiéis. Os tradicionais, por outro lado, perderam, há muito tempo, suas projeções enquanto grupos religiosos, pois assumiram uma postura de manutenção dos fiéis conquistados, iniciando ainda um processo de tolerância com outras religiões e com a conduta moral de seus conversos. No entanto, esses evangélicos não estão à margem do novo surto de avivamento que atinge a maioria das religiões cristãs ­ os chamados movimentos "carismáticos". Os "avivados" desempenham papéis relevantes no interior das igrejas reformadas, provocando um "olhar armado" das lideranças incumbidas de zelar pelas suas "tradições". "Mesmo que no fazer diário de cada uma dessas igrejas, inúmeras expressões de fé se evidenciam, violando muitas vezes os acordos estabelecidos em instâncias decisórias, no que se refere aos relacionamentos políticos com outros grupos, os "tradicionais" buscam o diálogo interdenominacional e procuram se posicionar criticamente quanto a temas de ordem política e econômica", defende Vasni de Almeida em sua tese. Um exemplo desse "fazer ecumênico" com tintura política foi a publicação, em agosto de 1996, do livreto "Os pequenos possuirão a terra", onde, na apresentação do texto, seus organizadores apontam os significados de um discurso um pouco conservador:

"Ao lançarmos este livreto, estamos assumindo um compromisso com aqueles que estão incansavelmente trabalhando a favor de uma ampla e diversificada Reforma Agrária que contemple as legítimas formas de ocupação da terra existente no Brasil. Só assim a Justiça reinará e a Paz desabrochará como flores do campo" (CESE ­ CONIC, 1996, pág.7)

Os espaços conjuntos de reflexões teológicas e de pronunciamentos revelam-se como instrumentos eficazes de publicitação de posicionamentos das igrejas cristãs

10 . ALMEIDA, Vasni de. Converter, ensinar e conformar: a missão metodista em Ribeirão Preto (1986-1990)

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tradicionais, contudo, mesmo em documentos específicos, ou seja, de circulação interna, a igreja evangélica produz textos que revelam a opção por uma religiosidade marcada pelo discurso político. Em 1982, o "Concílio Geral", instância máxima de decisão da igreja, aprovou um texto apontando suas diretrizes dali em diante e indicando em que os membros leigos e clérigos deveriam se inspirar para suas ações. Ao se pronunciarem sobre as oportunidades de interferências dos evangélicos enquanto religiosos na sociedade, os conciliadores aprovaram um texto explicitando uma preocupação com o cotidiano cultural, político e social da população.

"Há necessidade de conhecer o bairro, a cidade, o campo, o país, o continente, o mundo e os acontecimentos que os envolvem, por que e como ocorrem e suas conseqüências. Isto inclui conhecer a maneira como as pessoas convivem e se organizam, são governadas e participam politicamente, e como isto pode ajudar ou atrapalhar a manifestação da vida abundante" (VIDA e MISSÃO, 1982).

É necessário ressaltar que a "vida abundante" referida acima tem condições claras no documento, pois os clérigos e leigos tiveram a preocupação de descrever suas compreensões sobre o vocábulo, traduzindo-o como distribuição de riquezas e terras, serviços de saúde, de educação, de habitação para os "marginalizados da sociedade". Na década de 80 foram produzidos inúmeros textos indicando aos evangélicos os caminhos a serem trilhados para "transformarem a sociedade", ou que, pelo menos, os preparassem para uma aproximação com as camadas populares e com as instituições que as representassem. Esse discurso "politizado" e aguerrido perdeu impulso na década de 90,no entanto, a alta hierarquia da igreja continuou com a produção de discursos que servissem de instrumentos de análises para a evangelização brasileira. Fazendo coro às vozes que se levantam contra a onda do desemprego no país, um texto foi produzido para ser debatido nas igrejas no mês de maio de 1999. Parte de seu conteúdo é significativo para a ilustração da visão de mundo atual da liderança evangélica sobre a nova organização do mercado de trabalho e a atuação do Estado nesse sentido. Sobre as mudanças econômicas atuais:

"as relações econômicas, ao deixarem de ser nacionais, têm provocado transformações radicais no mercado de trabalho: além do aumento do

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desemprego, há a perda da força na representação sindical dos trabalhadores" (Colégio Metodista, 1999).

Finalizando o documento, os bispos da Igreja alertam os evangélicos para que esses não interpretem "o problema do desemprego como uma questão individual", ou como "maldições da vida", mas como problemas que se resolvem com "mudanças na estrutura do sistema que promove o sofrimento e a dor a tanta gente".

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3. O PASTOR CLEITON COLLINS

3.1. O perfil na mídia

Diversos resumos sobre a vida política e pessoal do pastor podem ser encontrados na internet e em outras publicações. Basicamente, os textos se repetem e foram extraídos de seu perfil oficial, publicado na página da Assembléia

Legislativa11Com uma narrativa dramática e recheada de acontecimentos fortuitos e negativos, o pastor veicula sua história de vida, afirmando que encontrou a salvação em Cristo e que hoje, regenerado, auxilia os jovens que se envolveram com as drogas, repassando-lhes sua experiência ao mesmo tempo em que se auto-intitula um exemplo a ser seguido.

"Nascido em 7 de agosto de 1967, o Pastor Cleiton Collins foi dado por sua mãe a outra família quando ainda era criança de colo, a fim de que fossem garantidas a alimentação e a educação de seu filho, tamanha a dificuldade financeira da família. Atualmente, o Pastor Cleiton Collins é o parlamentar da Casa Joaquim Nabuco mais votado da legislatura, com um total de mais de 89mil votos. Ele é um exemplo de superação na vida, uma vez que sua trajetória se assemelha à de milhares de crianças e jovens que passam por situação de vulnerabilidade e não conseguem se ausentar dela. Contudo a história do deputado é de vitória, por ter superado todas as dificuldades pelas quais passou. Ao completar 12 anos, a mãe de criação morreu e pouco tempo depois o pai adotivo. Repudiado pelos irmãos adolescentes, o Pastor Cleiton Collins passou a ser menino de rua, tinha como lar as rodoviárias, calçadas e praças, e terminou por se entregar às drogas. Mas, com força de vontade, lutou para se livrar dos vícios. Passados 10 anos, surgiu a oportunidade de se inserir no mundo artístico e, disposto a mudar de vida, aproveitou a chance e aperfeiçoou a sua vocação. Contudo,

11 www.alepe.pe.gov.br

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os problemas com os vícios persistiram. Iniciava-se a luta que foi a vitrine profissional inicial do deputado e a prova de que existem pessoas que aproveitam as chances que lhes são oferecidas, quando se acrescenta a presença de Deus em sua vida. Após diversas tentativas de transformação fracassadas, Pastor Cleiton Collins teve a vida restaurada através da palavra de Deus, o testemunho de vida do Deputado apresenta não só provações adversas, como também uma emocionante salvação. A partir dessa decisão, que segundo ele foi um divisor de águas em sua vida, o Pastor passou a ministrar em Igrejas, pregando o evangelho e atuando na área social. Lutando pioneiramente pela recuperação de viciados em drogas e, dessa forma, no combate à desigualdade social, que se traduz na razão pela qual os jovens se sentem atraídos pelo vício, o deputado criou o Projeto que se mostra em um consistente trabalho social voltado para a ressocialização de pessoas. Casado com a missionária Michele Collins, braço direito e companheira fiel do deputado. Pai de 5 filhos e pastor da Assembléia de Deus Ministério Madureira, o deputado estabeleceu uma nova ordem de vida, pautada no compromisso com a palavra de Deus e com o povo de Pernambuco. No exercício de 2007 a 2010, Cleiton Collins ocupou a presidência da Comissão de Assuntos Internacionais da Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco, foi membro titular da Comissão de Meio Ambiente e suplente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos. Defendeu incessantemente a criação da Frente Parlamentar em Defesa da Família e a instalação da CPI contra a pedofilia em Pernambuco, bem como a criação de projetos e aquisição de investimentos que visem cuidar de jovens e adolescentes viciados. Pastor Cleiton Collins é autor de diversas proposições de lei, como por exemplo, a Lei Estadual nº 13.899, que institui a obrigatoriedade da exibição de mensagens educativas de combate às drogas em shows e eventos. O temor a Deus e o compromisso com a população de Pernambuco justifica todo o empenho, amor e dedicação do deputado estadual pastor Cleiton Collins pela causa social e recuperação de dependentes em drogas, em consonância com o bem estar espiritual de todos. Por conta disto, idealizou o projeto Recuperando Vidas com Jesus, que agregou a palavra de Deus ao trabalho social de luta contra a miséria e desigualdade das relações humanas, expandindo o conhecimento da palavra do evangelho pelo estado, traduzido

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através dos trabalhos missionários e de evangelização que já percorreram todo Pernambuco. Hoje, o projeto atende dependentes químicos em pontos de recuperação por todo estado, a exemplo das mais de oito casas da Sociedade Assistencial Sara Vida, nas quais o Pastor Cleiton Collins é o mantenedor, e que trabalham na restauração de viciados em drogas, uma prova de que o pastor Cleiton deseja mudar a vida de milhares de pessoas, da mesma forma como aconteceu com a dele." (História de Vida do Pastor Cleiton Collins ­ Revista Total­ 30 de julho de 2010)

3.2. Entrevistas com o pastor

Entrevista com o pastor Cleiton Collins para o Diário de Pernambuco revela a sua influência em relação às mães dos drogados, a sua representatividade "divina", além de estratégias de comunicação desenvolvidas em sua campanha. Título: Pastor Cleiton Collins diz que apoio no 2º turno depende do conselho da igreja12 Por duas vezes dono do título de candidato mais bem votado da Assembléia Legislativa de Pernambuco- Alepe ­ o pastor Cleiton Collins (PSC), recebeu, nestas eleições, 137.157 votos. Em 2006, foram 89.585 votos. O peso e a importância dessa votação que recebeu vão além de um futuro engajamento no segundo turno, seja para apoiar Dilma Rousseff (PT) ou José Serra (PSDB). O crescimento da bancada evangélica no país, a forma como pretende atuar para representar este segmento e o que pensa a respeito dos boatos eleitorais foram alguns dos assuntos abordados na entrevista exclusiva concedida ao Diário de Pernambuco, nesta quarta-feira (06).

O senhor já esperava ser o mais votado nestas eleições? Eu orava e pedia a Deus para nos dar essa oportunidade mais uma vez, também em torno do trabalho que nós realizamos ao longo desses oito anos de mandato, atuando na área técnica do Legislativo, no orçamento do governo, no incentivo às comunidades terapêuticas, na questão de minimizar à violência. Foi fundamental o nosso trabalho

12 . Diário de Pernambuco ­ 06 de outubro de 2010

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abrindo os olhos das autoridades para o mal que o crack estava fazendo. Nós conseguimos minimizar, através do nosso incentivo, a dor de muitas mães. Tudo isso foi visto. A própria imprensa mostrou esse trabalho. Incentivamos o governo, participamos da instalação do conselho estadual antidroga. Pernambuco sempre ficava de fora das políticas públicas antidrogas porque não tinha conselho. E só pode vir algo do nacional se tiver o estadual. Em todo país, somente três estados não tinham conselhos, Pernambuco era um deles. Era complicado. O governador Eduardo Campos encarou isso aí junto com a gente com o plano de combate e prevenção e isso ajudou muito. Exatamente a visibilidade do meu mandato influenciou. Afirma ter conquistado o voto de opinião, baseado em seu trabalho como parlamentar.

O senhor abordou de forma freqüente, em seu guia eleitoral, a questão dos jovens recuperados das drogas pela fé, por que isso? Hoje existe um movimento grande que está crescendo que é o movimento das mães contra o crack pra gente justamente forçar os governantes, as autoridades a olhar para esta questão.

De onde vieram os 137.157 votos, foram só do povo da Assembleia de Deus e dos evangélicos? Vieram de todos os segmentos religiosos, mas principalmente evangélicos da Assembléia que eu represento aqui. Mas tive votos de católicos e de outros porque eu consegui conquistar o voto de opinião. Porque olha, hoje as pessoas têm acesso ao que a gente tá fazendo aqui via internet. Você fala uma besteira todo mundo já tá sabendo, principalmente na igreja. Se for uma coisa boa, tá todo mundo sabendo e, se for ruim, também. Como aquela história de Jaboatão, que o governador pediu para eu retirar a minha candidatura de prefeito,e todo mundo quando soube: ohh... Você lembra? E eu estava super bem nas pesquisas lá, e, assim, eu atribuí mesmo a Deus porque foi um milagre, um fenômeno.

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Explique melhor este voto de opinião que o senhor disse que conquistou. Tem aquele voto que é de apoio, por exemplo, o prefeito resolve apoiar o candidato "tal", que ninguém nem conhece, mas é o candidato do prefeito. Aí ele coloca toda a estrutura porque quer que ele seja. O voto de opinião é aquele que você conquista pelo seu trabalho, pelas suas propostas. São pessoas que acham interessante as suas propostas e vai lá e votam.

A necessidade de eleger representantes da igreja é para defender as bandeiras diante da possível legalização de questões polêmicas, como o aborto, casamento gay e liberação da maconha?

Também. É para ter esse cuidado de combater projetos que sejam infrutíferos. É justamente para ter este cuidado, uma voz ativa no parlamento para tentar de alguma forma barrar projetos que não têm nada a ver com a cultura, a saúde e a educação. Projetos que não são necessários, são inventados, como o que apareceu por aqui (na Alepe) para criar banheiros para homossexuais. Acho que isso já é uma forma de discriminação, a partir do momento que você quer estabelecer privilégios. E não pode existir isso. Eu fiz a frente parlamentar em defesa da família, que chamou atenção, com 39 assinaturas, exatamente para discutir essas questões. Acho tão irrelevante parar o parlamento para discutir banheiro para homossexual. O aborto existe e acontece arbitrariamente ou quando tem necessidade por uma intervenção judicial. Agora, querer institucionalizar o aborto não existe. Querer profissionalizar a prostituição, quando a pessoa está lá com fome e vende o seu o próprio corpo, é uma indignidade com a sociedade, com o ser humano. São projetos de gente despreparada que não tem compromisso com o comum, que está tentando só buscar votos da aquela parcela. Isso com certeza foi um dos fatores que fez com que a igreja conseguisse eleger muita gente e um fator que levou a candidatura de Marina (Silva - PV) a ter o crescimento que teve.

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Sabemos que a boataria na internet está correndo solta nesta campanha eleitoral e que muito do que atribuem a fala da presidenciável Dilma Rousseff (PT) não foi dito por ela, como o senhor analisa isso sendo também um homem público e consequentemente vulnerável a isso?

Acho uma maldade muito grande. As pessoas precisam, de alguma forma, analisar de forma concreta as posições claras de cada candidato, não ir atrás de boatos, mas de informação e do caráter dos candidatos. Não julgar, porque tem muita gente maldosa. Aqui, para Pernambuco, é importante ver o comprometimento que o candidato tem com a família e com o estado. Quem se compromete com Pernambuco? Quem é melhor para Pernambuco? Quem pode dar continuidade ao crescimento que o estado vem tendo? É preciso analisar tudo isto, é preciso calma para não espiriritualizar estas questões.

Essa questão da espiritualização é realmente muito séria, pastor, porque tivemos acesso ao folder que foi distribuído na Assembleia sobre toda essa polêmica em torno de Dilma do que ela defendia...

Eu sou contra, para mim todos os partidos são iguais. Nós perdemos vários candidatos evangélicos, homens de Deus, que perderam as eleições por causa disso. Enquanto isso, todos nós votamos em Marina que é do PV, que é um partido que defende a liberação da maconha. Aí você diz: e o PSDB? O PSDB foi o partido que bancou a marcha gay lá no governo de Serra e quanto não gastou nisso? A discussão não pode ser essa, até porque quem resolve essa questão da liberação do aborto e da maconha não é o presidente, é o parlamento. Quero então salientar que quem resolve esses temas polêmicos ­ se vai virar lei ou não ­ não é o governo federal, não é o Executivo, é o Legislativo. Nós temos que ficar de olho nos parlamentares da Assembleia Legislativa, da Câmara dos Deputados e do Senado. É aí que a população tem que está de olho em quem votou. Parece que agora se livraram porque estão todos eleitos, a bomba chiando é para à Presidencia, mas na realidade não é.

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Quais as prioridades para este novo mandato?

Trabalhar com o orçamento do governo, lutar contra a violência e incentivar os jovens, sobretudo aqueles que foram dependente e agora buscam uma oportunidade de emprego"

Como será trabalhar ao lado do presbítero Adalto, que agora é um companheiro das duas Assembleias (a de Deus e a Legislativa)?

Ah, será muito bom. Seremos dois apóstolos.

Entrevista com o pastor ­novembro de 2010 ­ em seu gabinete ­ 5º andar

Com os olhos atentos à tela do computador, pesquisando promoções de passagens áreas, o pastor Cleiton Collins, concedeu-me entrevista, no mês de novembro de 2010, em seu gabinete, no quinto andar, do prédio anexo da Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco. Em poucos momentos levantou a vista ao responder as seguintes perguntas:

Há quantos anos na política? 8 anos Como entrou nesse meio político? Vocação ou meio que por acaso? Vivi muito próximo das drogas, da prostituição e do submundo. Vi de perto esse meio e a vida me trouxe essa chance de ser deputado. Com isso posso auxiliar os necessitados e aqueles que se encontram nesse meio sujo. Quais foram os cargos que ocupou antes de ser deputado? Nenhum. Nunca fui do meio político. Sou comunicador nato, radialista e como tenho o dom da palavra, a vida me trouxe ao Parlamento. Sempre foi evangélico?

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Não. Encontrei esse caminho quando me envolvi com as drogas e fui resgatado. Defina o que é ser evangélico É ser antes de tudo, cristão. É uma ferramenta de fazer o bem. Como surgiu o convite para ser pastor? Naturalmente. Encontrei Jesus em minha vida e tudo mudou. Tive forças para vencer os vícios e lutar pela vida. Aos poucos, pela minha oralidade e compromisso em resgatar vidas, fui me sobressaindo e tornei-me pastor. Deus me emprestou o talento. Para o senhor, religião e política estão interligadas? O maior estadista foi Jesus Cristo. David, Paulo, Marcos, Daniel todos tiveram representação política. A religião sempre esteve ao lado dos interesses políticos. Se Jesus não tivesse representado uma ameaça aos interesses políticos, sem dúvida, não teria sido torturado. Como é a sua relação com os fiéis? Adoração, respeito, idolatria? A religião não precisa da política. Muitas mães me vêem como salvador, como o pastor, o conselheiro das famílias. E isso contribui para um elo de confiança. A credibilidade é fruto do meu trabalho. Como o senhor avalia os escândalos envolvendo os evangélicos? Corrupção há em todos os setores. Muito se fala, pouco se prova. Jamais tive uma proposta corruptível. Acho que inibo algumas pessoas que possam ter essa intenção, justamente por minha conduta e caráter. Como o senhor avalia esse crescimento do voto evangélico? Desde quando houve esse aumento? Qual é o futuro desse voto? Graças a Deus que os evangélicos estão ganhando mais espaço. Há uma necessidade da intervenção da igreja, contribuindo com o processo democrático e com o resgate dos valores morais para a sociedade.

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3.3. A campanha de 2010

(página de abertura do site)

Propostas defendidas pelo então candidato *Dar continuidade ao incentivo do gorverno no combate ao crack. *Quero continuar sendo o campeão do orçamento do estado, sendo o Deputado que mais trabalha. *Reduzir o desespero das famílias de dependentes químicos *Trabalhar para unir sociedade e poder público para ajudar a minimizar problemas que o crack está causando. *Combater a Pedofilia. *Criar a Delegacia da Família, com profissionais especializados para receber casos como a pedofilia. *Continuar sendo o deputado que mais criou emendas parlamentares. *Continuar defendendo o Estatuto da Criança e do Adolescente.

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(adesivo para carro)

(praguinha com foto)

(praguinha sem foto)

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(cartaz)

(marcador)

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4. O DISCURSO POLÍTICO- RELIGIOSO

Um importante artigo de Rafael Bruno Gonçalves, graduado em Ciências Sociais, pela Universidade Federal de Pelotas e mestrando do programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, do ISP refere-se ao discurso dos evangélicos na política. Para o estudioso, trata-se de um tema de diversas análises, e suscita intensos debates nos campos das Ciências Sociais.

"A participação dos evangélicos na política institucional brasileira recebeu importantes enfoques no meio acadêmico, sobretudo nas pesquisas realizadas durante a Assembléia Constituinte (PIERUCCI, 1989), momento em que se constitui a suposta "bancada evangélica. Como exercia um papel significativo, esta bancada tornou-se objeto de análise de temas que, em determinadas circunstâncias, demonstravam o caráter conservador de uma parcela relevante dos parlamentares evangélicos eleitos".

O objetivo dessa seção é a apresentação das principais noções desenvolvidas por Ernesto Laclau e Chantal Mouffe13. Este referencial teórico servirá de base para a análise dos pronunciamentos evangélicos identificados nas audiências públicas, nas sessões plenárias, e nos grandes expedientes na Assembléia Legislativa de Pernambuco, promovidos pelo Pastor Cleiton Collins. A teoria do discurso de Laclau e Mouffe, também chamada teoria da hegemonia, teoria pós-marxista entre tantas outras denominações, pode ser considerada uma nova forma de pensamento sobre o tratamento de algumas questões clássicas como a caracterização do social e do político. O livro de Laclau e Mouffe Hegemonia y Estratégia Socialista: hacia uma radicalización de la democracia publicado em 1985, serviu como ponto de partida para a estruturação dessa teoria. Importantes conceitos desenvolvidos por Laclau já aparecem em Hegemonia y Estratégia Socialista. No entanto, um conceito desta obra que merece destaque para os fins desta análise é o de antagonismo. É importante ressaltar que este é um conceito derivado não apenas das divergências de classe, mas das diferentes relações antagônicas que se estabelecem nos planos sociais. A realidade social é repleta de

13 LACLAU, Ernesto. Nuevas reflexiones sobre La revolución de nuestro tempo. Buenos Aires. Editora Nueva Visión, 1990.

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diferenças discursivas, e neste aspecto, o antagonismo serve para dar um caráter de negatividade ao que é considerado como o "Outro". Laclau e Mouffe defendem que não existem identidades totais que possam estar localizadas permanentemente em pólos antagônicos. Ela se torna antagônica em uma determinada circunstância discursiva, mas que podem mudar de posição. Na obra destes autores, isto fica explícito na seguinte passagem:

Participamos todos em numerosos sistemas de crenças que são contraditórios entre si e, no entanto, nenhum antagonismo surge destas contradições. A contradição não implica, pois, necessariamente, uma relação antagônica. Mas se excluído tanto a "oposição real" como a "contradição" como categorias que permitam dar conta do antagonismo, pareceria que a especificidade deste último fora inapreensível. As descrições usuais dos antagonismos na literatura sociológica ou histórica confirmam esta impressão: elas explicam as condições que fizeram os antagonismos possíveis, mas não os antagonismos como tais (LACLAU & MOUFFE, 1987, p.213)

Para entender o processo de construção do social, a partir da teoria do discurso, Laclau utiliza-se de uma série de contribuições de diversos autores provenientes dos mais diferentes campos de investigação: da psicanálise, da política, da filosofia e da lingüística. Para chegar ao conceito de discurso de Laclau, antes é preciso entender como ele constrói este conceito, sobre quais definições e em que circunstâncias ele é perceptível. A noção de articulação é fundamental para esta percepção. É através dela que Laclau reelabora o conceito de hegemonia. Desta forma Laclau e Mouffe afirmam sobre a articulação:

Chamaremos articulação qualquer prática que estabelece uma relação entre elementos tal que suas identidades sejam modificadas como um resultado da prática articulatória. A totalidade estruturada resultante da prática articulatória chamaremos de discurso. As posições diferenciais, na medida que elas apareçam articuladas num discurso, chamaremos de momentos. Por contraste, denominamos elemento qualquer diferença que não esteja discursivamente articulada (LACLAU & MOUFFE, 1987, p. 177).

A prática articulatória faz com que diferentes elementos, o que pode ser perfeitamente exemplificado como diferentes grupos, com diferentes "bandeiras" de lutas, mas que são vítimas de um mesmo governo autoritário, passem agir de forma conjunta, assim tornando-se momentos.

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A alteração da identidade é conseqüência desta articulação, o resultado desta prática, que altera as características mais peculiares de um grupo que ingressa na prática articulatória, é o que Laclau chama de discurso. No entanto, é importante destacar que o resultado desta prática não é uma simples soma de elementos. Para um melhor entendimento sobre o que representa uma prática articulatória, a seguinte passagem na mesma obra diz:

A prática da articulação consiste, portanto, na construção de pontos nodais que fixam parcialmente sentidos; o caráter parcial dessa fixação procede da abertura do social, resultante, por sua vez, de um constante transbordamento de todo discurso pela infinitude do campo da discursividade (LACLAU & MOUFFE, 1987, p. 193).

Neste trecho, surge um novo elemento importante para compreender este aspecto da sua obra. Trata-se do que é denominado como ponto nodal, o discurso capaz de articular as mais diversas demandas diante de uma fronteira antagônica instável. O ponto nodal, ou aquele momento do discurso que é capaz de aglutinar, é proveniente da análise lacaniana. Laclau parte desta referência e chama de pontos nodais aqueles pontos discursivos privilegiados dentro de uma fixação parcial de sentido, mesmo que estes apresentem ainda todo um caráter de contingência e precariedade. (LACLAU E MOUFFE, 1987). Estes pontos discursivos resultam de um momento de oposição a algo que é percebido como inimigo, ou seja, aquilo que de fato representa uma ameaça, um antagonismo. Nesta mesma análise, os autores defendem que estes antagonismos não são interiores, mas sim exteriores à sociedade, eles são responsáveis por estabelecer estes limites não somente à sociedade, mas a toda constituição discursiva e decorrente disto é a idéia de impossibilidade da sociedade em sua constituição plena. Através da dinâmica da articulação, das práticas estabelecidas, da noção antagônica e do aspecto da negatividade encontrado, torna-se possível diagnosticar no que consiste a hegemonia ou a sua prática. Para Laclau, a hegemonia discursiva consiste em um espaço, e este requer preenchimento; existe uma disputa permanente pela hegemonia. Esta relação conflitiva e a instabilidade das fronteiras que separam os diferentes discursos é o que determina o caráter político de toda a relação hegemônica.

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Existe uma disputa de identidades sociais pela supremacia, na tentativa de criar um significado coletivo, um valor único e universal. Eni Orlandi aponta que, para a compreensão de um discurso, é necessário estar atento às condições em que foi produzido e considerar a linguagem como "interação, vista esta na perspectiva em que se define a relação necessária entre o homem e a realidade natural e social" (1998, pág.17). Para a autora, o dizer de um texto não se origina somente no desejo do ator em cena, mas nasce de outros discursos:

"Do ponto de vista discursivo, as palavras, os textos, são partes de formações discursivas que, por sua vez, são partes de formação ideológica. Como as formações discursivas determinam o que pode e deve ser dito a partir de uma posição dada, assim é que se considera o discurso como fenômeno social (ORLANDI, 1987, pág.158).

Paul Henry ressalta que a linguagem deve ser entendida em conjunto com as relações sociais que marcam determinado período, não se desvinculando da ordem dos signos: a linguagem (ou jogo, ou ordem dos signos, ou o discurso) não é entendida como uma origem, ou como algo que encobre uma verdade existente

independentemente dela própria, mas sim como exterior a qualquer falante, o que define precisamente a posição do sujeito, de todo sujeito possível (1993, p.29). Helena Brandão afirma que as condições sócio-históricas não são secundárias na formação de um discurso. Analisando a articulação dos processos ideológicos aos fenômenos lingüísticos, conclui que:

A linguagem enquanto discurso não constitui um universo de signos que serve apenas como instrumento de comunicação ou suporte de pensamento; a linguagem enquanto discurso é interação, e um modo de produção social; ela não é neutra, inocente (na medida em que está engajada numa intencionalidade) e nem natural, por isso o lugar privilegiado de manifestação da ideologia (1995, pág. 12)

Michel Pêcheux reitera que o sentido das palavras não pode ser buscado unicamente na sua literalidade

mas ao contrário, é determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo no qual as palavras, expressões e preposições são produzidas (Isto É, reproduzidas, 1995, pág. 160)

Trilhando nas conclusões desses autores, constatamos que o discurso evangélico na cidade, durante quase meio século, foi permeado por outras falas, que, somadas às representações do grupo, fecundaram novas formas de relações sociais. Ao discursar

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se identificaram com o processo normativo de valores e costumes desencadeado por diferentes instituições públicas e privado desde o início do século. Visavam a preparar a população urbana para à racionalização do tempo, a abstenção ao luxo, à ostentação, além de praticar ações sociais individualizadas. O discurso dos evangélicos, legitimado por reflexões teológicas, ou seja, pela voz divina, atuava como um veículo de delineação social, coerente com conceitos políticos, religiosos e econômicos que visavam à formação de uma população ordeira, obediente e voltada para o trabalho. Reforçaram, com seu discurso moralizante, os valores culturais das classes médias em formação. A linguagem que utilizavam alimentava uma guerra interminável contra um mundo em que eram colocados e ao qual resistiam, e a condição básica para aceitá-lo era a sua transformação. Rubem Alves reitera que "a linguagem religiosa se origina nas emoções e, por isto, é necessário identificar as emoções a partir das quais ela se construiu praticamente" (1982, pág. 53) Para projetar, com eficácia, o seu discurso, os evangélicos publicavam artigos em periódicos locais, sendo essa projeção, efetuada através de um meio de comunicação de massa ­ o jornal. Segundo Thompson, os meios técnicos de fixação de conteúdo e reprodução das formas simbólicas tornam possíveis novas formas de interação social, pois "modificam ou subvertem as velhas formas de interação, criam novos focos e novas situações para a ação e a interação, e, com isso, servem para reestruturar relações sociais existentes e as instituições e organizações das quais elas fazem parte (1995, p. 296) A publicação dos artigos era realizada em conjunto com outras igrejas protestantes instaladas nas cidades. Alguns textos de "valor religioso educacional" (ATAS, 1940) de presbiterianos, batistas, congregacionais e metodistas eram entregues aos sábados nos jornais para que fossem publicados nas edições de domingo, numa tentativa evidente de alcançar um número maior de pessoas. Os editores dos periódicos, mesmo com precariedade técnica do período, quando ainda sofriam com a falta de papel, não se recusavam em veicular as mensagens dos evangélicos. Tendo em vista a não autonomia do discurso religioso, pois, segundo Orlandi, ele fala a partir do inquestionável, que nada mais é do que o redizer da significação divina (1987, p. 260). Os protestantes tradicionais, mesmo criticando os valores religiosos arraigados

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na sociedade, não encontravam dificuldades para que as mensagens chegassem até os leitores. Na imprensa buscavam veicular seus paradigmas religiosos, procurando impingir a outros cultos uma imagem de degradação moral. Recorrendo às metáforas bíblicas, comentavam, as mensagens jornalísticas, o caráter de magia de outras religiões.

Naquele meio de luxo e superstição, pulavam feiticeiros, exorcistas, mágicos, intérpretes de sonhos, adivinhos e toda a sorte de peritos em sortilégios que exploravam os marinheiros e mercadores, e principalmente, os crédulos peregrinos (Diário da Manhã, 21.10.1934)

Segundo Peri Mesquida, várias matizes protestantes norte-americanas coloriram o evangelismo brasileiro e, dessa forma, concebiam a sua religião como libertadora, verdadeira, fonte de luz e de civilização. As outras religiões levavam à perdição, eram falsas e enganadoras, representavam as trevas e a ignorância e era motivo de atraso do país. Usando das metáforas ­ o bem e o mal, o falso e o verdadeiro, a luz e as trevas, o atraso e o progresso ­ ele revela a visão dicotômica que possuíam em relação aos diferentes. O ataque principalmente aos postulados católicos era uma das armas que usavam para marcar sua identidade (1993, p. 45) e a sua alteridade.

Tal é o evangelismo. É uma doutrina de sacrílegas, negações, fingindo de orvalho que favoreça a expansão do sentimento religioso, derrama nas almas o frio de uma religião sem amor, de um culto sem encantos, de uma virtude sem obras; é uma religião abafadiça, pesada, que não eleva, materializa (Diário de Notícias, 10.10.1933)

Torna-se

importante

reiterar

que

os textos

jornalísticos

referentes

ao

comportamento tanto moral como político e religioso, elaborados pelos clérigos metodistas, tinham como suporte um texto bíblico e que neste caso os autores se colocavam como mediadores do protagonista do sentido religioso, ou seja, Deus. A legitimidade do discurso evangélico não se sustentou unicamente nas reflexões teológicas, ele encontrou ressonância numa sociedade em transformação, onde alguns hábitos de convivência social teriam de ser regulamentados.

O co-enunciador interpelado não é apenas um indivíduo para quem se propõem "idéias" que corresponderiam aproximadamente a seus interesses; é também alguém que tem acesso ao "dito" através de uma maneira de dizer que está enraizada em uma "maneira de ser", o imaginário de um vivido (1993, p. 48-9)

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4.1 O discurso do pastor Cleiton Collins e a cristalização do voto evangélico

O ponto nodal apontado por Laclau e Mouffe como essencial para o discurso político- ideológico justifica a oratória do pastor Cleiton Collins que discute ampla e irrestritamente o uso das drogas. Tendo, inclusive, esse tema como bandeira de luta. Efeitos e conseqüências causados pelo uso de entorpecentes, seja no aspecto físico, psíquico ou social, têm sido a base do discurso do pastor pelos últimos anos. Ainda com base na teoria de Laclau e Mouffe, diversos discursos entram em competição, na tentativa de criar um caráter universal. A soma de diferentes demandas, que deixam a sua particularidade de lado e passam a assumir este caráter universalizante. Através desta abordagem, é possível definir a preleção do pastor, superando a literatura, principalmente marxista, que baseia-se na luta de classes como elemento central da hegemonia. Até então, os mecanismos utilizados pelos pastores eram as publicações em jornais, mas com o avanço da tecnologia tais mensagens expandiram-se e ganharam um universo inimaginável. A internet, o rádio e a TV são fortes ferramentas para a disseminação da informação. Alternativas para combater a dependência química motivaram a realização de um Grande Expediente Especial, em 18 de junho de 2010. O evento, solicitado pelo deputado Pastor Cleiton Collins, marcou o Dia Internacional de Combate às Drogas, lembrado em 26 de junho. A solenidade foi aberta pelo 2º secretário da Mesa Diretora, deputado Sebastião Rufino. "A Casa discute um dos problemas mais graves e desafiadores da atualidade: o narcotráfico",comentou. Parlamentares, autoridades, especialistas, comunidades terapêuticas, como a ONG Saravida, e representantes da sociedade lotaram o plenário da Casa Joaquim Nabuco. Autor de diversos pronunciamentos, indicações e projetos sobre o tema, o pastor Cleiton Collins lamentou o avanço do uso de entorpecentes e o fato de o Brasil integrar a rota de exportação de cerca de 60% da cocaína produzida na Colômbia. "É hora de

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dar um basta. Não podemos ficar de mãos atadas", enfatizou, citando o relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) que aponta que ¼ da população jovem brasileira já experimentou algum tipo de droga. (Fonte: Diário Oficial ­ 18 de junho de 2010 - anexo

1).

O debate sobre as drogas evidencia assim um posicionamento antagônico, mas que tem a capacidade de se mover, de um lado o grupo composto pelo parlamentar evangélico, e católico além do lobby pró-discurso, cientistas, terapeutas, vítimas do vício e os parlamentares defensores.

5. ANEXOS

5.1. Matérias vinculadas no Diário Oficial Aumento no consumo de drogas motiva debate na Assembléia

Publicado no Diário Oficial do Estado (D.O.E.) em 18/06/2010.

Efeitos e conseqüências causados pelo uso de drogas, seja no aspecto físico, psíquico ou social, têm preocupado a sociedade. Alternativas para combater a dependência química motivaram a realização de um Grande Expediente Especial, ontem. O evento, solicitado pelo deputado Pastor Cleiton Collins (PSC), marcou o Dia Internacional de Combate às Drogas, lembrado em 26 de junho. A solenidade foi aberta pelo 2º secretário da Mesa Diretora,deputado Sebastião Rufino (PSB). "A Casa discute um dos problemas mais graves e desafiadores da atualidade: o narcotráfico",comentou.

Parlamentares, autoridades, especialistas, comunidades terapêuticas, como a ONG Saravida, e representantes da sociedade lotaram o plenário.

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A necessidade de fiscalizar o cumprimento da Lei nº 13.899/10, de autoria de Collins e sancionada pelo governador Eduardo Campos(PSB), também voltou a ser citado. A norma determina a fixação de placas e faixas em locais que sediaram eventos. Os textos devem informar sobre o risco do consumo de entorpecentes. "Tenho andado em vários lugares nesse período de Copa do Mundo e de São João e não encontrei nenhum aviso nesse sentido", denunciou. O deputado Eriberto Medeiros (PTC) elogiou a iniciativa. "A droga não é apenas uma questão penal, mas de saúde pública", ponderou. Presidente do Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas (Cepad) e secretário de Desenvolvimento Social, Joaquim Roldão também se pronunciou, citando o plano do Governo do Estado de enfrentamento ao problema, lançado no mês passado. "São várias ações. A sociedade tem onde buscar socorro, não apenas no que diz respeito à saúde, mas à segurança e ao desenvolvimento social". A iniciativa foi detalhada pelo coordenador do Programa Vida Nova, do Governo Estadual, Rafael West. "É um trabalho conjunto que reúne dez secretarias estaduais e prevê ações nas áreas de prevenção, repressão qualificada, acolhimento dos dependentes, tratamento e inclusão

socioprodutiva. Mães deram depoimentos emocionados.

Campanha

Publicado no Diário Oficial do Estado (D.O.E.) em 19/11/2009.

A decisão do Partido Social Cristão (PSC) de ceder o tempo das inserções na TV para uma campanha de combate ao uso de drogas motivou o pronunciamento do deputado e correligionário Pastor Cleiton Collins, na tarde de ontem. Ele ressaltou que a iniciativa será veiculada, na próxima sexta-feira (20). "Sem dúvida, um grande instrumento de combate ao uso de entorpecentes no Estado, principalmente o crack", pontuou. Drogas - Apelo para que imprensa e sociedade combatam o crack

Publicado no Diário Oficial do Estado (D.O.E.) em 18/12/2009.

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A problemática do crack voltou a ser tema de discurso do deputado Cleiton Collins (PSC), no Plenário da Assembleia Legislativa. Ontem, o parlamentar que já propôs a criação da Frente em Defesa dos Direitos da Família, sugeriu que, em 2010, os Poderes Legislativo e Executivo adotem ações públicas e espaços direcionados à recuperação de dependentes químicos. "Tenho acompanhado o sofrimento dessas pessoas. É preciso firmar parcerias com hospitais e clínicas, a fim de minimizar o sofrimento dos viciados e de suas famílias", afirmou. Collins destacou uma iniciativa do Programa Mais Você, da Rede Globo, que tirou das ruas e conseguiu tratamento para dependentes químicos. Railane Andressa Silva, de 19 anos, foi beneficiada. "Um ponto que me deixou comovido foi perceber a vontade dos dependentes de largar o vício", pontuou, acrescentando um apelo para que a imprensa e a sociedade pernambucana apóiem o combate ao tráfico de drogas.

Combate às drogas volta ao Plenário Publicado no Diário Oficial do Estado (D.O.E.) em 16/06/2010. A Lei Nº 13.899/10, aprovada por unanimidade na Casa e sancionada pelo Governo do Estado, cuja a finalidade é informar e denunciar, por meio de placas, os malefícios provocados pelo uso de entorpecentes, foi, mais uma vez, mencionada pelo autor da proposição, Pastor Cleiton Collins (PSC). Ontem, o parlamentar enfatizou, no Plenário, que amanhã (17), o Grande Expediente Especial abordará o tema e convidou a todos para participar do encontro. Na ocasião, será lembrado o Dia Internacional de Combate às Drogas. Ele se mostrou preocupado "com a pouca fiscalização" dos órgãos competentes, em relação à venda de drogas, principalmente, do crack. "Tive o cuidado de fiscalizar, no Carnaval, e não vi uma só mensagem contrária ao uso de drogas. Agora, com a legislação em vigor, fiscalizarei mais". O deputado tomou como exemplo a Arena da Copa, montada no bairro de Boa Viagem, que transmitirá os jogos. "Constatei diversas marcas de patrocinadores, entre elas, refrigerantes, cervejas e bancos. Todos deveriam informar sobre os perigos dos alucinógenos, no entanto, não deram a atenção devida. O descaso se estende aos donos das casas de show, que têm descumprido o texto legal aprovado neste Parlamento," lamentou.

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Deputados repudiam manifestação em favor da maconha Publicado no Diário Oficial do Estado (D.O.E.) em 15/05/2009. O Coletivo Marcha da Maconha Brasil foi alvo de críticas, na reunião plenária da Alepe, ontem. O deputado Cleiton Collins (PSC) fez um apelo aos demais parlamentares para que se manifestem contra à iniciativa, que reúne indivíduos e instituições que trabalham pela descriminalização do uso da droga no País.

Cerca de mil pessoas se reuniram no Recife Antigo, no início do mês, na segunda edição da Marcha da Maconha em Pernambuco.

Segundo Collins, durante a manifestação de 2008, os participantes enrolaram cigarros falsos de maconha, mas, este ano, os manifestantes fumaram a erva em público, sem constrangimento. Para o parlamentar, "a Assembleia Legislativa deve marchar contra o mal que o entorpecente representa para as famílias". Ele ainda registrou que, em todo o mundo, existem 158 milhões de usuários. Em apartes, os deputados Bringel (PSDB) e Soldado Moisés (PSB) apoiaram o pronunciamento de Collins e afirmaram considerar "absurda" a participação do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, no evento promovido no Rio de Janeiro. O deputado Maviael Cavalcanti (DEM) lembrou que a maconha é "a porta de entrada para o uso de outras substâncias ilegais".

Na opinião da deputada Elina Carneiro (PSB), deveria ser proibido qualquer ato em defesa de uma prática que só traz prejuízos aos lares. Já o deputado Eriberto Medeiros (PTC) lembrou que muitas vidas foram perdidas devido ao consumo da droga, que motiva diversos tipos de delitos.

Droga - Debate avalia prejuízos causados por entorpecentes

O Plenário aprovou por unanimidade o requerimento para a realização de um Grande Expediente Especial que debaterá os prejuízos provocados pelo uso de entorpecentes. A sugestão foi do deputado Cleiton Colins (PSC). "O evento deverá ser realizado na próxima segunda-feira (25), devido ao Dia Internacional de Combate às Drogas, comemorado em 26 de junho", destacou. Deverão ser convidados o coordenador do Fórum Estadual de Segurança Pública, José Luiz Ratton, responsável pelo Plano Estadual de Segurança,

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além de vários representantes de Organizações Não-Governamentais (ONGs) que trabalham com pessoas envolvidas com drogas, a exemplo da Sara Vida, a Recuperando Vidas com Jesus e o Desafio Jovem. Para Collins, o assunto deve ser debatido constantemente. "É importante discutir e acompanhar o que o Poder Executivo tem feito para minimizar o problema", salientou.

Drogas Publicado no Diário Oficial do Estado (D.O.E.) em 10/11/2010. O deputado Cleiton Collins (PSC) se reunirá amanhã, às 14h, no auditório da Casa, com o sub-secretário Antidrogas de Minas Gerais, Clóvis Benevides, e o presidente da Federação das Comunidades Terapêuticas Evangélicas do Brasil (Feteb), Welligton Vieira. Os dois são especialistas no combate ao uso indevido de substâncias e produtos psicoativos e vão auxiliar o parlamentar na elaboração de um projeto de lei, visando a criação da Secretaria Especial Antidrogas em Pernambuco. "Será mais um reforço no combate aos entorpecentes no Estado", comentou Collins, convidando os parlamentares para o debate. Drogas - Aumento do consumo de crack preocupa Publicado no Diário Oficial do Estado (D.O.E.) em 19/06/2007. O aumento no consumo de drogas no Estado, em especial o crack, e os problemas causados pela dependência química serão debatidos na próxima segunda-feira (25), durante um Grande Expediente Especial, na Assembléia Legislativa. Ontem, o deputado Cleiton Collins (PSC) convidou os parlamentares para participar da discussão, que será realizada na Semana Nacional de Combate às Drogas. A série de reportagens publicadas sobre o tráfico e o consumo de crack em Pernambuco, no Jornal do Commercio, foi lembrada por Collins e também pelo deputado Pedro Eurico (PSDB). De acordo com Collins, a reunião terá a participação de juízes, profissionais e representantes de Organizações Não-Governamentais (ONGs) que trabalham com a recuperação de viciados. Ex-dependentes darão testemunho de que "há chances de largar o vício". "Temos acompanhado debates sobre a necessidade de se realizar Reformas, como a Tributária e a Política, mas precisamos pensar em promover a reforma da vida, que passa pela apresentação de projetos e leis que dêem oportunidades às pessoas. Precisamos expressar, nesta Casa, nossa indignação em relação às drogas, não somente o crack, mas as drogas lícitas, como a cachaça", apontou.

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Em relação à série de reportagens, o deputado parabenizou a repórter Ciara Carvalho e lembrou que procurou um dos personagens das matérias. "Pudemos sentir na pele o desejo do rapaz de deixar o submundo das drogas, que destrói a vida, a família e a sociedade. Somos atingidos por essa praga que vem assolando o Estado e devemos buscar caminhos que mudem a vida dessas pessoas", salientou. Eurico ressaltou que a matéria do JC detalhou a operação dos traficantes e mostrou dados graves. O parlamentar ainda ressaltou que o espaço reservado ao Projeto Academia da Cidade, às margens da Avenida Agamenon Magalhães "está sendo utilizado como depósito de drogas". "Ontem (anteontem), fui pessoalmente à boca de fumo do bairro de Santo Amaro e, lá, tive contato com jovens grávidas entre 14 e 16 anos. No mesmo local, rapazes vendiam a droga. Tentei adquirir e não consegui porque fui reconhecido. Trinta metros à frente existe um posto policial, passei por lá e estavam dois agentes dormindo. Tudo isso às 13h, após a denúncia do JC", relatou. Segundo Eurico, os textos servem como alerta para as autoridades que atuam na segurança pública. "Não adianta falar que o Governo passado não combateu as drogas. A gestão atual também não está tomando providências. As autoridades e a sociedade não podem se omitir diante desse fato", alertou, informando que o tráfico já está penalizando o Agreste do Estado.

Entorpecentes - Documento cobra combate às drogas

Publicado no Diário Oficial do Estado (D.O.E.) em 28/06/2007.

Um documento com mais de cem mil assinaturas solicitando ações de combate ao uso de drogas será entregue ao presidente da Assembléia Legislativa, deputado Guilherme Uchoa (PDT). A informação foi dada pelo deputado Cleiton Collins (PSC), que parabenizou a Casa Joaquim Nabuco pelo Mutirão Pela Vida, realizado segunda-feira passada, em celebração ao Dia Internacional de Combate às Drogas. O abaixo-assinado será encaminhado ao governador do Estado.

Collins agradeceu a presença dos jovens, colégios, Organizações NãoGovernamentais (ONGs), Ministério Público, Polícias Civil e Federal "e toda a sociedade que apoiou o Legislativo". O socialista-cristão também ressaltou a ajuda oferecida aos dependentes químicos durante o evento. "O amplo debate envolveu a sociedade e foi muito importante para a recuperação dos viciados", frisou.

Entorpecentes

Publicado no Diário Oficial do Estado (D.O.E.) em 15/12/2010.

A pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Municípios, traçando diagnóstico sobre o consumo de drogas no Brasil, fundamentou o

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pronunciamento do deputado Pastor Cleiton Collins (PSC), na tarde de ontem. Quatro mil cidades brasileiras participaram do estudo e 98% delas declaram ter problemas com drogas. Das 108 localidades analisadas, 52 delas afirmaram manter ações de combate ao crack. Em 14 cidades há Centros de Apoio Psicossocial (Caps). "Apelo ao Conselho Estadual Antidrogas para que apresente medidas efetivas ao Conselho Nacional Antidrogas (Conad), a fim de reverter essa situação." Na ocasião, Collins também lamentou a morte do pastor José Flor da Silva, vice-presidente das Assembleias de Deus, Convenção Abreu e Lima e apresentou Voto de Pesar.

Força concentrada - Frente Parlamentar contra drogas

Publicado no Diário Oficial do Estado (D.O.E.) em 11/05/2010.

O avanço do crack continua preocupando o deputado Pastor Cleiton Collins (PSC). O parlamentar encaminhou, ontem, requerimento à Mesa Diretora solicitando a criação de uma Frente Parlamentar Combate à Droga. "Existe um grupo de trabalho semelhante na Câmara Federal e o seu objetivo é tão importante que até o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), declarou que pretende elaborar um programa nacional, após observar o que for proposto pela Frente", comentou. Desde de 2003, quando assumiu o primeiro mandato, Cleiton apresentou requerimentos e propostas de lei visando ao enfrentamento do consumo de entorpecentes e à recuperação de usuários. "Cerca de 40 requerimentos expressaram minha preocupação", observou, lembrando a Lei 12.401/03, de sua autoria. "A norma institui a construção de uma casa de recuperação para drogados, no âmbito da Região Metropolitana do Recife (RMR), mas, ainda não foi posta em prática", lamentou, pedindo apoio ao Governo do Estado. O parlamentar citou a morte de Neyson Durval, de 21 anos, no último domingo. O jovem estava em tratamento no Centro de Recuperação Saravida, porém, fugiu da instituição e acabou sendo assinado. Há pouco menos de um mês, ele foi acorrentado pela mãe, que tentava evitar que Neyson continuasse a usar crack. "Quantas vidas vão nos custar o vício das drogas?", indagou.

Imprensa chama atenção para uso do crack

Publicado no Diário Oficial do Estado (D.O.E.) em 26/11/2009.

A dependência do crack voltou a ser destacada pelo deputado Cleiton Collins

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(PSC), que citou o papel da imprensa no combate à droga. Como exemplos, o parlamentar citou, ontem, o jornal Diario Pernambuco e o programa NETV 1ª Edição, da Globo Nordeste. Ambos veicularam reportagens sobre o drama vivenciado pelos usuários e suas famílias. Relatos como o de uma mãe que jogou a filha do segundo andar, pulando, em seguida, durante uma crise de abstinência, chamaram a atenção do parlamentar. "A abstinência é uma das piores fases", declarou, acrescentando que apenas 9% dos viciados pedem tratamento, a fim de se livrar da dependência. As escolas, de acordo com Cleiton, devem adotar matérias específicas sobre o tema. "Se as unidades de ensino mostrassem a realidade, como a imprensa está fazendo, os estudantes jamais experimentariam qualquer tipo de tóxico", avaliou, defendendo, em seguida, que a Assembleia Legislativa tenha um representante no Conselho Estadual Antidrogas. O Conselho, instalado no Governo Eduardo Campos, conta com representantes da Polícia Federal, do Ministério Público, da sociedade, entre outros entes. Em apartes, Adelmo Duarte e Maviael Cavalcanti, ambos do DEM, Moisés (PSB), Esmeraldo Santos e Manoel Ferreira, do PR, Bringel (PSDB), Nadegi Queiroz (PHS) e Clodoaldo Magalhães (PTB) parabenizaram Collins pelo trabalho realizado por meio do Projeto Saravida.

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5.1. O surgimento da Assembléia de Deus em Pernambuco

A Igreja Assembléia de Deus chegou em Pernambuco em 1918, com os missionários suecos Joel Frans Adolph Carlson e Signe Charlota Carlson, que antes de vir para esse Estado passaram um período de tempo em Belém do Pará para aprender a língua portuguesa. Ainda em 1910, outro casal havia sido enviado para o Brasil a fim de divulgar seu credo. Gunnar Vingren e Daniel Berg e depois passaram um tempo nos Estados Unidos. Os missionários chegaram a Belém no dia 19 de novembro de 1910. Até então, eles faziam parte da Igreja Batista da América. O pastor metodista Justus Nelson os acompanhou à Igreja Batista em Belém, e os apresentou ao responsável pelo trabalho, pastor Raimundo Nobre. Os jovens diziam ter o coração avivado pelo Espírito Santo, e oravam sem cessar, de dia e de noite. Esse fato chamou a atenção de alguns membros da igreja, que passaram a censurá-los, considerando-os como fanáticos por dedicarem tanto tempo à oração. Com desenvoltura e eloqüência continuaram a pregar a salvação em Cristo Jesus e o batismo com o Espírito Santo. Como resultado das orações, alguns membros daquela Igreja Batista creram nas verdades do Evangelho completo que os missionários anunciavam. Os primeiros a declararem publicamente sua crença nas promessas divinas foram as irmãs Maria Nazaré e Celina Albuquerque. Elas não somente creram, mas resolveram permanecer em oração até que Deus as batizasse com o Espírito Santo. Irmã Celina foi batizada à uma hora da manhã do dia 2 de juho de 1911. Após o batismo dessa irmã, começaria uma luta acirrada contra uma verdade doutrinária tão bem documentada nas Sagradas Escrituras: a atualidade do batismo como o Espírito Santo e dos dons espirituais. Na Igreja Batista algumas pessoas creram no fogo pentescostal, outras, porém, não se dispuseram a compreender a doutrina do Espírito Santo. Alguns crentes, aferrados a um tradicionalismo sem qualquer base bíblica, ameaçavam exaltadamente punir, castigar ou desprezar os partidários da doutrina que tanto caracterizara a Igreja Primitiva e os grandes avivamentos que se sucederam. Dessa forma, os crentes do Movimento Pentecostal foram segregados da Igreja Batista junto com os irmãos Daniel

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Berg e Gunnar Vingren. Os missionários, então, fundaram uma nova igreja e adotaram inicialmente o nome dela de Missão de Fé Apostólica, mais tarde chamada de Assembléia de Deus, que causaria admiração e espanto ao mundo inteiro pela eficácia de seu crescimento. Na ótica evangélica, era preciso disciplinar comportamentos tanto quanto "salvar almas", e esse discurso legitimava o ataque às outras práticas religiosas diferentes do puritanismo protestante. Os clérigos que chegaram a Pernambuco procuravam combater as religiões diferentes, tanto o catolicismo como as mediúnicas, concebidos como obstáculos ao seu projeto salvacionista, pois outras denominações protestantes que se instalaram na cidade na primeira metade do século XX, apesar de divergências teológicas, não constituíam em ameaças aos evangélicos.

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6. FONTES "Milagres das multiplicações de votos"(Le Monde Dominique, abril, 2005); "Bancada evangélica no Congresso Nacional"(Blog Político, outubro, 2010); "Bento XVI preocupado com voto evangélico (Blogospeledeovelha,setembro, 2010); "Edir Macedo pede iluminação às pessoas na hora do voto" (Mundo Cristão, outubro, 2010); "Evangelho segundo os políticos"(Revista Veja, junho, 2004); "Política em cena com Pastor" (Jornal O Dia, 27 de agosto de 2004); "César: Conde e Crivella usam o nome de Deus pra manter eleitor cativo" (IG 26/8/2004); "Infame Mistura no Púlpito Evangélico"(O Globo18/08/2004); "Não misturo Religião com Política diz Crivella" (Jornal do Brasil 24 de setembro de 2004); "Guerra por votos Evangélicos " (O Dia, 11 de outubro de 2004); "Bittar condena mistura de religião com política" (O Dia, setembro ,2004); "Pastor anima evento tucano na RMR norte" (Diário de Pernambuco, outubro, 2010); "Bispo parte para o confronto", (Folha de Pernambuco, outubro, 2010); "Pastores aderem à campanha do PT", (Diário de Pernambuco, outubro, 2010); "Dilma conquista apoio da Universal" (Jornal do Commércio, outubro, 2010); "Evangélicos pregam contra petistas", (Diário de Pernambuco); - Vídeo. O cristão e a política: conversando com Chico Whitaker. 1995. Edições Paulinas - Diário de Pernambuco ­ 07 de outubro de 2010 - "A verdade sobre o 2º turno das eleições 2010 (www.youtube.com.br- silasmalafaiaoutubro de 2010) - Vida e Missão, 1982. Editora Evangélica. Folheto - Colégio Metodista, 1999. Texto produzido e debatido nas igrejas da época. - www.alepe.pe.gov.br (perfil parlamentar) ­ pastor Cleiton Collins - Revista Total ­ 30 de julho de 2010 ­ História de vida do pastor Cleiton Collins - Diário de Pernambuco (06 de outubro de 2010) ­ "Pastor Cleiton Collins diz que apoio no 2º Turno depende do Conselho da Igreja" - Isto É, reproduzidas, 1995, pág. 160.

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7. CONCLUSÃO.

Tendo em vista o crescimento da participação evangélica neste importante órgão de discussão e deliberação política, é importante ressaltar que o grupo demonstrou sua capacidade de influência política no exercício de suas funções previstas na Constituição Federal. Através da aplicação deste tipo de análise, fixada em um longo recorte espaço-temporal, é possível chegar a importantes conclusões. A idéia de que existe uma "bancada evangélica" unida, onde as discussões no interior desta bancada sempre apresentariam uma forma harmoniosa de decisão, não corresponde com boa parte dos pronunciamentos identificados. O comportamento dos evangélicos na Câmara Federal é heterogêneo, existe uma pluralidade de posicionamentos diante dos mais diversos temas que vão surgindo em pauta, inclusive daqueles parlamentares da Frente Parlamentar Evangélica. Autores de alguns trabalhos científicos insistem em afirmar que existe um grupo evangélico coeso, que vota sempre em bloco. Este tipo de afirmação pode até ser comprovada em legislaturas anteriores. No entanto, na legislatura investigada neste artigo, em virtude do crescimento da participação dos evangélicos, torna-se pouco provável que exista uma bancada que participa do sufrágio com unanimidade. Porém, existem algumas exceções identificadas nestes discursos, trata-se daqueles temas de caráter corporativo, ou de questões vinculadas aos valores morais transmitidos pela tradição cristã. Dessa forma, é importante destacar que a discussão de um mesmo tema, em algumas circunstâncias, apresenta até mesmo um carater conflituoso, opiniões que acabam refletindo situações de divergência explícita, algo que não é muito comum quando se trata de parlamentares de um mesmo partido político e orientação religiosa. A pesquisa comprova a justificativa de que o discurso político-religioso é voltado para as mães de familia, as donas de casa e as esposas, com o intuito de angariar mais votos. Neste âmbito, um outro fenômeno vem sendo comprovado pelos corredores do anexo I, da Assembléia Legislativa. Pastores, presbíteros e um "verdadeiro exército" de irmãos defendem as suas ideologias religiosas ao mesmo tempo que apresentam as

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propostas politicas do pastor Cleiton Collins e do presbitero Adalto, consolidando o linguagem e a narrativa no corpo a corpo. Outro item importante é a polêmica criada em discursos conservadores e progressistas que enaltecem a imagem da Assembléia Legislativa dentro do espaço público. Requerimentos, indicações e projetos de lei que defendem a ideologia

apregoada nos discursos eleitorais foram comprovados através da análise do comportamento do parlamentar.

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