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História, imagem e narrativas No 5, ano 3, setembro/2007 ­ ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br

Mangá feminino, Revolução Francesa e feminismo: um olhar sobre a Rosa de Versalhes

Valéria Fernandes da Silva Doutoranda em História na UnB [email protected] Resumo: No Ocidente os quadrinhos têm mantido um diálogo intenso com a História, como pano de fundo, recurso para a ação, fonte de inspiração. No Japão não é diferente. Tradicionalmente os quadrinhos para rapazes, shounen mangá, recorrem à história local como fonte de inspiração para suas narrativas. No caso do quadrinho feminino, ou shoujo mangá, o primeiro mangá histórico foi buscar na Revolução Francesa a ambientação para contar a história da Rosa de Versalhes, uma moça criada como homem e que se torna chefe da guarda da Rainha. Em nosso artigo pretendemos discutir o caráter didático quadrinho feminino japonês como veículo de discussão da inserção das mulheres no mercado de trabalho e de questões sociais urgentes, como as demandas feministas, além, de meio de informação sobre uma história que não era tão próxima do cotidiano das meninas japonesas. Atentaremos também para a importância da Rosa de Versalhes como marco cultural importante dentro da história dos quadrinhos japoneses. Palavras-chave: Revolução Francesa, Histórias em Quadrinhos, Mangá, Feminismo

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Os quadrinhos sempre mantiveram um diálogo criativo e produtivo com a História. A aproximação se dá de várias formas: há a releitura heróica de um passado mítico, como no caso do Príncipe Valente; há projeção de discussões contemporâneas em uma realidade histórica idealizada, como em Asterix; há também a narrativa autobiográfica, como em Persépolis. As possibilidades são infinitas, e vários autores e autoras têm oferecido obras que combinam de forma didática e inventiva o saber historiográfico com a ficção.

Figura 1: Oscar François e a Maria Antonieta na visão de Riyoko Ikeda. Riyoko Ikeda, A Rosa de Versalhes, vol. 2, 1987. Ilustração avulsa especial sem número de página.

Mesmo assim, aqui no Brasil, estamos bem defasados em publicações quando o assunto são quadrinhos japoneses, os chamados mangás, com pano de fundo histórico. A questão é ainda

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mais evidente quando se trata daqueles produzidos para o público feminino, os shoujo mangá. Nesse sentido, decidi escrever este artigo focando em uma das obras mais bem sucedidas dessa área no Japão e que em 2007 está completando 35 anos, trata-se de Berusaiyu no Bara ou, em nossa língua, a Rosa de Versalhes.1 Pretendo ressaltar a importância desta obra e o diálogo da autora com a historiografia além da influência do pensamento e das demandas feministas dentro dos shoujo mangá nos anos 70. Fatos considero que foram fundamentais para tornar a Rosa de Versalhes um marco dos mangás e da cultura pop japonesa. MANGÁ O Japão tem o maior mercado de quadrinhos do mundo e aproximadamente 30% do que é impresso no país é mangá e a quantidade de revistas é gigantesca para os padrões Ocidentais ou de qualquer outra região do mundo. Os formatos e periodicidades podem variar, mas em geral as revistas em quadrinhos são bem grossas, no mínimo 150 páginas, monocromáticas, e feitas em papel ordinário, o que as torna descartáveis. Dessa maneira, boa parte dos japoneses coleciona suas histórias favoritas somente quando elas saem encadernadas em separado. 2006, p. 17) No Japão, todos lêem quadrinhos ­ meninos e meninas, homens e mulheres ­ e há revistas para todas as faixas etárias, desde as crianças em idade pré-escolar até adultos de mais de 40 anos.

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(GRAVETT,

Neste país, a idéia de que HQs são material infantil ou do sexo masculino nunca criou raízes,

assim o território permaneceu aberto para todos. Deste modo, enquanto no Ocidente o discurso virulento contra os quadrinhos ganhou corpo impulsionado pelo livro A Sedução dos Inocentes, do psicólogo Frederick Werthan, publicado nos 50 nos EUA, no Japão a indústria de mangá começou a crescer exatamente no mesmo momento. O fato é que os mangás ajudavam a desanuviar as pressões resultantes do grande esforço de recuperação do pós-guerra, divertiam, informavam e davam esperança.

Ou ainda, Lady Oscar como a série ficou conhecida na maioria dos países ocidentais, como França, Itália, Espanha e, mesmo o Brasil. 2 Há toda uma nomenclatura ligada aos quadrinhos japoneses. Os mangás para o público infanto-juvenil são chamados de shounen quando para o público masculino e shoujo, quando para o público feminino. Os quadrinhos para jovens do sexo masculino são chamados de seinen, os para o público feminino com o mesmo corte etário são chamados de josei ou de lady's comics.

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Nos EUA, o Dr. Werthan identificou nos quadrinhos, em especial os de super-heróis e terror, uma ameaça à juventude. O autor argumentava que os comics estavam impregnados de violência, imoralidade, apologia ao crime e mesmo um incentivo à prática homossexual. (ROBINSON, 2004, p. 40-46 e 76-80) Essas investidas deram origem, ainda nos anos 50, ao rígido código de ética que passou a controlar a produção norte-americana de quadrinhos, limitando a criatividade, infantilizando as personagens e temáticas, enfim, impondo um conservadorismo que quase imobilizou roteiristas, desenhistas e estúdios. Tal fenômeno nunca ocorreu no Japão, onde qualquer tema pode aparecer nos mangás. Outra singularidade do país é que há uma grande fatia desse mercado voltada exclusivamente para o público feminino, são os chamados shoujo mangá. 3 Não somente uma quantidade imensa de títulos é voltada para as meninas e mulheres, que no Ocidente representam uma parcela muito pequena dos consumidores declarados de quadrinhos, como a maioria das autoras são, também, mulheres. (FUJINO, 1997, p. 15-18) Nem sempre foi assim, e a autora da Rosa de Versalhes, Riyoko Ikeda, foi uma das muitas quadrinistas que ajudaram a consolidar a participação das mulheres nesse campo de trabalho. QUADRINHOS FEMININOS? Nos anos 1940 e 1950 nos Estados Unidos havia quadrinhos para meninas com títulos como Flaming Love, Romantic Thrill, e Teenage Diary Secrets. Eles eram criados por homens, e tiveram vida curta. Quadrinhos como a Mulher Maravilha, populares hoje, são extensão do fenômeno do super-herói masculino, e muitos dos leitores são garotos. (SCHODT, 1983, p. 88) 4 É assim que Frederick L. Schodt, um dos maiores especialistas em quadrinhos japoneses dos Estados Unidos, inicia seu capítulo sobre shoujo mangá. O autor deixa claro que houve uma série de quadrinhos para o público feminino nos Estados Unidos, material feito em geral por

De acordo com o antropólogo americano Matt Thorn, mais da metade das mulheres japonesas com menos de 40 anos lêem mangá e mais de três quartos das adolescentes lêem quadrinhos com regularidade. Ainda segundo este autor, há cerca de 100 publicações de quadrinhos para o publico feminino em publicação no Japão atualmente. (THORN, 2001) 4 "In the 1940s and 1950s in the United States there were comic books for girls with titles like Flaming Love, Romantic Thrills, and Teenage Diary Secrets. They were all created by men, and all were short-lived. Comics like Wonder Woman popular today are an extension of the male superhero phenomenon, and most of their readers are young boys." (SCHODT, 1983, p. 88)

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homens. Seu objetivo não era investigar esse fenômeno, mas falar de shoujo mangá, marcar a diferença em relação a um quadrinho que morreu, entre outras coisas por que não fez a transição para mãos femininas. Trina Robbins, estudiosa dos quadrinhos femininos norte americanos, tem outra versão. Houve quadrinhos femininos feitos por homens nos EUA, e eles eram a maioria, mas houve mulheres no mesmo país que fizeram quadrinhos, não só para público feminino, não só com recorte romântico, e isso desde o século XIX. O mapeamento feito pela autora em seu livro The Great Women Catoonists é extenso, (ROBBINS, 2001) mas aponta para o mesmo caminho: os quadrinhos femininos nos EUA, praticamente desapareceram depois dos anos 50 e as mulheres quadrinistas se tornaram uma raridade, a ponto de nem serem citadas, como bem ilustra o comentário de Schodt. Houve um processo de exclusão, e é o que Trina Robbins defende em seus livros. Um fenômeno que se acentuou particularmente com o fim da II Guerra Mundial e o retorno dos homens aos seus postos de trabalho, que algumas mulheres haviam ocupado. (ROBBINS, 2001, p. 79-105.) As mulheres tiveram que abandonar os empregos e retornar aos lares, esse backlash,5 junto com a campanha anti-quadrinhos movida nos anos 50, fez com que os quadrinhos, produzidos por e para mulheres, fossem progressivamente asfixiados, marcando os comics como masculinos e fazendo com que as leitoras migraram para outras mídias, como as novelas de TV e os romances populares. É verdade que algumas resistiram, mas as leitoras escassearam, mesmo aquelas que amavam a Mulher Maravilha. No mesmo período, ocorreu o inverso no Japão, as mulheres começaram a se tornar quadrinistas e criaram um mercado tão importante que esta talvez seja a única profissão no Japão na qual as mulheres podem efetivamente ganhar salários maiores que os dos homens. Desde o final do século XIX, de acordo com pesquisadora Yoko Fujino, houve revistas femininas no Japão que traziam alguns quadrinhos. (FUJINO, 2002, p. 31-53) Eram em quantidade menor que os contos e geralmente episódicos. Já as gravuras dessas revistas se utilizavam de alguns signos visuais que irão marcar a estética do shoujo mangá como, por

5 "Backlash" é uma palavra que em língua inglesa significa retrocesso, em especial, aquele que implica em perda de direitos, de espaço, em uma virada conservadora.

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exemplo, as figuras delgadas, os grandes olhos. (FUJINO, 2002, p. 70-71) O primeiro passo para o formato atual se deu com a revista Shoujo Club (Clube das Meninas), fundada em 1923 nos moldes antigos, e que foi reestruturada depois da II Guerra para se tornar uma revista de quadrinhos para meninas. (FUJINO, 2002, p. 51) Se a estética já estava mais ou menos estruturada, coube Osamu Tezuka, considerado o maior autor de mangás de todos os tempos, criar o shoujo mangá através da série A Princesa e o Cavaleiro (Ribon no Kishi, literalmente, O Cavaleiro da Fita ­ 1953-1956). (SATO, 2007, p. 128-129) Foi Tezuka quem introduziu no universo dos quadrinhos japoneses os recursos cinematográficos e colocou fim ao modelo de histórias curtas e fechadas, dando início o sistema de longas séries publicadas em capítulos e acompanhadas com ansiedade durante meses, até anos, pelos leitores e leitoras.

Figura 2: Osamu Tezuka. A Princesa e o Cavaleiro, JBC, 2002. Capa da edição brasileira.

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A Princesa e o Cavaleiro é uma série de fantasia que mostra a história de uma princesa, que por erro de um anjo recebeu dois corações, um de menina e outro de menino. A garota, chamada Safiri, foi obrigada a viver como príncipe, pois só assim poderia reinar. Publicada pela primeira vez em 1953 na revista Shoujo Club, a série foi um sucesso imediato. Além disso, inaugurou a discussão sobre papéis de gênero e a força das convenções sociais questões que se fazem presentes nos quadrinhos femininos japoneses até os nossos dias. E que são algumas das discussões que Riyoko Ikeda feitas na sua obra A Rosa de Versalhes. Com o fenômeno "Osamu Tezuka" muitos jovens passaram a se dedicar a produção de mangás e a marca principal dessa primeira geração é a quase ausência de mulheres na profissão. Assim, os primeiros shoujo mangá eram escritos por homens para meninas que estavam principalmente no primário e a temática girava em torno dos conflitos familiares, em especial a relação mãe e filha, e dos romances idealizados. Mas as meninas crescem, e os homens não estavam conseguindo dar conta das suas demandas. As editoras temiam perder o seu público e começaram a abrir espaço para que um maior número de mulheres pudesse atuar na área. A mudança começou realmente em 1966 com uma jovem de 16 anos chamada Machiko Satonaka que ganhou um concurso de mangá e abriu caminho para uma nova geração de mulheres quadrinistas. Satonaka definiu assim as suas motivações para se tornar autora de mangá: Eu achava que poderia fazer um trabalho melhor eu mesma, e que as mulheres eram mais capacitadas para entender o que as meninas queriam ler do que os homens. Desenhar quadrinhos era também uma forma de ganhar liberdade e independência sem ter que ficar na escola por longos anos. Era alguma coisa que eu poderia fazer por mim mesma, era um tipo de trabalho que permitia que as mulheres fossem iguais aos homens. (SCHODT, 1983, p. 97) 6 (Grifo meu) A entrada em massa das mulheres no mercado de quadrinhos japoneses é fruto de vários fatores, mas aponta para uma espécie de empowerment, isto é, uma tomada de poder, no caso da consciência de suas próprias capacidades e da busca por um espaço profissional que permitisse a igualdade com os homens. Tais questões não eram estranhas nos anos 60, pois a igualdade era

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"I thought 1 could do a better job myself, and that women were more capable of understanding what girls want than men. Drawing comics was also a way of getting freedom and independence without having to go to school for years. It was something I could do by myself, and it was a type of work that allowed women to be equal to men."

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uma das bandeiras do movimento feminista e de outros movimentos de direitos civis. (LOURO, 1997, p. 14-15) Riyoko Ikeda, autora da Rosa de Versalhes, entrou no mercado no ano seguinte, 1967, e tornou-se parte do grupo de quadrinistas, conhecido como Nijûyonen Gumi, grupo do ano 24, pois a maioria delas era nascida no ano 24 da Era Showa,7 o nosso ano de 1949. Essas autoras introduziram uma série de inovações nos shoujo mangá tanto no campo da estética, quanto no quadro de temáticas. (THORN, 2001) Homossexualidade, gravidez na adolescência, estupro, conflitos raciais, a lutas das mulheres por um lugar no mundo público e no mercado de trabalho. Não havia fronteira e as ambientações iam desde o romance escolar até a ficção científica, dramas históricos e quadrinhos de esporte. Coube à Riyoko Ikeda inaugurar essa nova fase dos quadrinhos femininos no Japão em 1972 com a publicação, na revista Margaret, da série A Rosa de Versalhes (Berusayiu no Bara). Foi o primeiro shoujo mangá com uma temática histórica tratada com certa seriedade e riqueza de detalhes. Os editores não acreditavam que a série poderia ser um sucesso, mas ela foi um hit instantâneo que persiste como referência, inclusive utilizada em cursos universitários sobre mangá e cultura pop japonesa, até os dias de hoje.

O QUE É A ROSA DE VERSALHES

A Rosa de Versalhes, desenhada e escrita, por uma ex-estudante de filosofia chamada Ryoko Ikeda, tinha como proposta contar a trágica história de Maria Antonieta, última rainha da França antes da Revolução de 1789. Esse foi o ponto de partida, no entanto, havia outra mulher, Oscar François, que terminou se tornando a verdadeira "Rosa de Versalhes". Esta personagem, filha caçula do General de Jarjayes,8 que foi educada como homem para satisfazer as ansiedades do pai, transformando-se em capitã da guarda da Rainha.

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A Era Showa corresponde ao governo do Imperador Hiroito e se estendeu de 1926 até 1989.

8 François Régnier de Jarjayes é uma figura histórica que tentou salvar a rainha Maria Antonieta às vésperas de sua execução na guilhotina. (FRASER, 2006, p. 452)

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Figura 3: Oscar François, uma mulher comandante dos guardas reais. Riyoko Ikeda, A Rosa de Versalhes, 1972.

O tema da moça travestida de homem ­ por vontade própria, ou não ­ na ficção ou mesmo na vida real, lembremos de nossa Maria Quitéria, não é incomum e no início da série, que contou com 10 volumes, 9 Oscar não deveria ser a protagonista. Riyoko Ikeda pretendia fazer uma biografia de Maria Antonieta, enfocando desde a sua educação na Áustria, sob a tutela da mãe, a Imperatriz Maria Teresa, até a guilhotina, mostrando seus anos em Versalhes, as intrigas dentro e fora da corte e a deterioração da sua popularidade, além do romance com o sueco Conde Fersen que Stefan Zweig, a fonte maior de Ikeda, e outros autores consultados por ela davam como certa. Oscar aparece pouco no primeiro volume e toda a atenção está sobre Antonieta, só que rapidamente a personagem ganhou popularidade entre as leitoras, é fundado um fã-clube, as cartas se multiplicam. Oscar acaba tornando-se a heroína da série, uma mulher que serve

fielmente e protege sua senhora, apesar de sofrer por amar o mesmo homem que a rainha, o Conde Fersen. Com o tempo, a personagem acorda para a situação miserável em que vivia boa parte da população francesa, trava contato com gente como Robespierre e Saint-Just. Lê os

9 A edição que estamos usando como fonte para as imagens é uma republicação de 1987 em dois volumes, mas a série já foi publicada em vários formatos.

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iluministas mesmo contra a vontade de seu pai. E, por fim, escolhe se juntar aos revolucionários no 14 de julho. Acima de tudo, Oscar luta para conseguir que os homens que comanda reconheçam a sua competência, que não é somente um bibelô, um capricho de um pai frustrado. O interessante é que ao contrário de personagens que escondem sua condição feminina, todos sabem que Oscar é uma mulher, e ela se comporta como um oficial como outro qualquer. Acredito ser importante ressaltar que houve uma matéria recente do New York Times intitulada Tradição é obstáculo para carreira das trabalhadoras japonesas, mostrando um caso semelhante ao do quadrinho de Riyoko Ikeda. Eis o trecho da matéria: Takado Ariishi, 36, conheceu uma versão radical desse fenômeno ao crescer como a única filha do presidente da Daiya Seiki, a pequena fábrica da sua família que fornece peças para a Nissan. No início, o seu pai, desapontado, cortou o cabelo dela como o de um garoto e proibiu que ela brincasse com bonecas. Quando ela teve o primeiro filho, dez anos atrás, o pai a despediu da companhia e nomeou como seu sucessor o neto recém-nascido. Mesmo assim, Ariishi assumiu o cargo de presidente três anos atrás, após a morte do pai (o filho dela era ainda muito novo). Ela afirma ser a única mulher em um grupo de cerca de 160 diretores de empresas fornecedoras da Nissan. A primeira vez em que Ariishi participou das reuniões bianuais do grupo, pediram que ela aguardasse em uma sala junto com as secretárias. "Ainda tenho que provar o tempo todo que uma mulher pode ser presidente", lamenta Ariishi, uma engenheira que no seu escritório usa o mesmo uniforme azul unissex dos operários. (FACLER, 2007) Até que ponto Oscar é obra de ficção ou retrata casos que a autora conheceu? A Senhora Ariishi nasceu um ano antes do início da quadrinização da Rosa de Versalhes e sua vida é muito próxima daquela da personagem de Riyoko Ikeda. Aproxima-se de Oscar na educação, nas imposições de papéis de gênero masculinos. Também a personagem de Ikeda terá que resistir ao pai quando este se arrepende da criação que lhe deu e decide que ela deve passar por um reenquadramento, abrindo mão da vida militar a abraçando o casamento e a maternidade. Oscar não se dobra e ela representa para suas leitoras um modelo, alguém que se torna sujeito de sua própria História e lute por um lugar no "mundo dos homens". Já Maria Antonieta é apresentada na série como alguém que está prisioneira de um papel que lhe conduz a um fim trágico.

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Figura 4: Maria Antonieta, prisioneira do seu papel de Rainha (detalhe). Riyoko Ikeda, A Rosa de Versalhes, vol. 2, 1987, p. 5.

Quando falamos de "gênero" estamos nos remetendo a categoria criada pelas teóricas feministas e, em especial, Joan Scott que diz: (...) gênero significa saber a respeito das diferenças sexuais. Uso saber, seguindo Michel Foucault, com o significado de compreensão produzida pelas culturas e sociedades sobre as relações humanas, no caso, relações entre homens e mulheres. Tal saber não é absoluto ou verdadeiro, mas sempre relativo. (...) O saber não se relaciona apenas a idéias, mas a instituições e estruturas, práticas cotidianas e rituais específicos, já que todos constituem relações sociais. O saber é um modo de ordenar o mundo e, como tal, não antecede a organização social, mas é inseparável dela. (SCOTT, 1994, p. 12) A categoria gênero é uma categoria relacional, isto é, se refere à construção dos papéis feminino e masculino em uma dada sociedade, pressupondo-se, num primeiro momento, que essa organização binária seria incontornável. Neste caso, Jane Flax acrescenta que o gênero é uma relação social prática e devemos nos propor a fazer um exame daquilo que significa o "feminino" e o "masculino" em uma determinada sociedade. (FLAX, 1991, p. 230) Assim, através do gênero "(...) dois tipos de pessoas são criadas" e que dessa construção histórico-social decorrem "(...) divisões e atribuições diferenciadas e (por enquanto) assimétricas de traços e capacidades humanas." (FLAX, 1991, p. 228). Ikeda deixa bem claro através de sua protagonista que é o gênero que cria a diferença. Oscar tem um corpo feminino, moldado por uma criação "masculina" que não tolheu suas

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capacidades, como ocorreu com suas irmãs mais velhas ou com uma Maria Antonieta. A frustração do pai não produziu uma mulher infeliz, mas alguém que toma o destino em suas próprias mãos. Oscar não se vê como inferior a homem algum, nem aceita um papel passivo, nem se dobra à autoridade do pai porque é a tradição. Talvez por esses e outros motivos, as meninas passaram a admirar tanto a personagem, mas do que a figura de Antonieta, a heroína romântica e trágica. Uma característica interessante da personagem de Ikeda é que ela também não abre mão do amor e, nesse sentido, a autora se coaduna com aquilo que era o esperado de um quadrinho voltado para o público feminino. Só que Ikeda dá à sua protagonista a possibilidade de viver um romance entre iguais, coisa que para a maioria das mulheres japonesas seria um sonho impossível. O corpo feminino de Oscar, moldado por comportamentos de gênero masculinos, não deixou de manifestar uma sexualidade feminina. Ikeda rompe assim com o sistema sexo-gênero que estava sendo discutido nos anos 70, abandona o binarismo e nos oferece a estrutura que admite a relação entre sexo-gênero-sexualidade que se constroem e se relacionam. (BENTO, 2003) Os papéis de gênero incorporados por Oscar, o fato de ter assumido uma identidade que em todos os sentidos é masculina, não a obriga a ter uma sexualidade (desejo) homossexual. Alguém poderia dizer que Ikeda ainda não estava pronta para tamanha ousadia, que manter sua personagem como heterossexual foi uma incoerência, ou uma tentativa de satisfazer suas leitoras, mas o fato é que ela também rompeu com um arranjo simplista, e não transformou a personalidade de sua personagem; não a despiu de seus comportamentos de gênero quando ela descobre o verdadeiro amor nos braços do amigo de infância, André. Na verdade, Ikeda flerta com a homossexualidade. Em um dado momento do mangá, antes de admitir sua paixão por André ou se livrar do fantasma de Fersen, Oscar lamenta não poder retribuir o amor de uma moça que a ama, exatamente por não ser um homem. Ikeda também oferece à suas leitoras uma heroína masculinizada ­ ou andrógina, no entender de alguns ­ que encontra o amor nos braços de um homem que, na verdade é seu igual, não alguém que complete o binômio masculino-feminino. E é Oscar quem escolhe a quem amar, não seu pai; e escolhe de acordo com seu coração, e não de acordo com as convenções sociais. Ela não ama

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conforme a sua classe, nem como as heroínas tradicionais costumavam amar. Como diz Cristiane Sato: (...) embora o enredo de Berusaiyu no Bara ocorresse séculos no passado, Oscar e André representavam um relacionamento moderno idealizado para suas leitoras, no qual papéis socialmente pré-determinados entre homens e mulheres estavam sendo discutidos. (SATO, 2007, p. 52) HISTORICAMENTE VEROSSÍMEL Mas a Rosa de Versalhes era também um quadrinho histórico, o primeiro mangá desse tipo feito para o público feminino no Japão. A escolha do contexto da Revolução Francesa como pano de fundo representou uma novidade, pois mesmo entre os quadrinhos feitos para o público masculino a escolha era sempre o próprio passado japonês, em especial o período dos grandes samurais. Foi uma proposta arriscada e a série poderia ser cancelada, mas encontrou acolhida entre as leitoras e não decepcionou a editora Kodansha. Nas palavras da própria autora: O mais duro foi convencer o meu editor a respeito da publicação da Rosa de Versalhes, e não por ser mulher, mas sim porque ele considerava que minhas leitoras não iriam se interesar por uma história tão complicada ambientada em um contexto histórico tão complexo e, ao mesmo tempo, tão distante.10 O temor do editor estava ligado ao possível estranhamento das leitoras em relação a algo muito estranho à sua realidade. Eis outro ponto de ruptura da obra de Ikeda, pois até então a maioria das histórias tinha um recorte intimista e estava ligada ao cotidiano, à escola, à vida familiar, ou tinha um tom de fantasia assumido com reinos distantes ou colégios internos europeus idealizados. Há fantasia na Rosa de Versalhes, personagens, como a protagonista, saídas da imaginação da autora, mas a matéria histórica, as personagens reais, da nobreza, do povo, estavam presentes com um realismo até então nunca visto em quadrinhos femininos. O romance, os bailes, as belas roupas, os atrativos tradicionais, estão lá, mas os sansculottes, a miséria dos camponeses e trabalhadores urbanos, a prostituição, a violência contra os mais fracos, a etiqueta

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"No, creo que no. Lo más duro fue convencer a mi editor de la publicación de La Rosa de Versalles, y no porque yo fuera mujer, sino porque él consideraba que mis lectoras no tendrían interés en una historia tan complicada ambientada en un contexto histórico tan complejo y a la vez lejano".

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sufocante de Versalhes, a imprensa que difamava a Rainha, e, por fim, a guilhotina, também estão no mangá.

Figura 5: Napoleão Bonaparte é uma das figuras históricas que faz uma aparição na Rosa de Versalhes (detalhe). Riyoko Ikeda, A Rosa de Versalhes, vol. 2, 1987, p. 280.

A fonte principal utilizada pela autora foi a biografia de Maria Antonieta escrita por Stefan Zweig, acadêmico austríaco judeu, falecido no Brasil em 1942.11 É uma biografia famosa, traduzida para várias línguas, e foi referência para o filme hollywoodiano Marie Antoinette de 1938 com Norma Shearer que foi muito elogiado.12 Ikeda foi detalhista ao extremo e buscou o máximo de referências visuais e bibliografia para recriar Versalhes e a França das vésperas da Revolução.13 O sucesso da série fez com que muitas japonesas se interessassem por História Ocidental, pela História da França, visitassem o país de Oscar, seguissem carreira como professoras ou pesquisadoras. Além disso, quando a versão em desenho animado da série chegou à Europa,

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"Estando en el instituto, a los 17 o 18 años, cayó en mis manos una biografía de Maria Antonieta escrita por Stefan Zweig, elaño 1933.Se titulaba. Marie Antoinette: The portrait of an ordinary woman. A partir de entonces se comenzó a formar en mi cabeza la idea de escribir una historia sobre la vida de Maria Antonieta". 12 Marie Antoinette in The Internet Movie Database. http://imdb.com/title/tt0030418/, 01 de setembro de 2007. 13 Nem todas as referências estavam corretas, como ela mesma confessa: "(...) Por ejemplo, en mi obra dibujo la Basílica del Sagrado Corazón, en Montmartre, que es posterior a la Revolución Francesa. Fue construida en el siglo XX, concretamente en 1910. Mis asistentes la vieron en fotos y la reprodujeron, y cuando nos dimos cuenta ya se estaba publicando el comic en todo Japón y no había marcha atrás .De todas formas no ha llegado ninguna crítica de Francia. No se habrán dado cuenta...".

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incluindo aí a França, onde recepção foi positiva, e possibilitou que o mangá tivesse boa acolhida, não somente por causa das personagens ou da beleza do traço, mas pela sua grande relevância enquanto leitura ficcional bem fundamentada da Revolução Francesa. (SATO, 2007, p. 53) Sato ressalta que Ikeda também agrega à sua série padrões de comportamentos japoneses. Assim, Oscar é na verdade um samurai, guerreiro fiel ao seu senhor, no seu caso, senhora, a Rainha Maria Antonieta. Só que conforme seus olhos vão se abrindo para as misérias do povo francês, Oscar rompe com sua classe e seus deveres, tornando-se um ronin, um samurai sem mestre, um proscrito, e é assim que morre lutando ao lado do povo na Queda da Bastilha. (SATO, 2007, p. 52)

Figura 6: Oscar, um samurai na corte de Versailles, interrompe o primeiro encontro do Conde Fersen com Maria Antonieta (detalhe). Riyoko Ikeda, A Rosa de Versalhes, vol. 1, 1987, p. 195.

No Japão, o sucesso da série atravessa três décadas sem perder o fôlego. Além das muitas republicações, há o desenho animado com 40 capítulos de 1979 e um filme feito na França, em 1978,14 com atores europeus, algo inédito até então. Um filme animado estreará em breve no Japão para comemorar os 35 anos da série. Mas talvez o produto mais duradouro e significativo

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Lady Oscar in the Internet Movie Database. http://imdb.com/title/tt0077827/, 01 de setembro de 2007.

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ligado à Rosa de Versalhes sejam os espetáculos musicais encenados pelo Teatro Takarazuka, que é formado somente por mulheres. O Takarazuka, que é o primeiro teatro de revista japonês, foi fundado em 1914 e encena tanto peças ocidentais, quanto japonesas, além de adaptações de mangás famosos, especialmente shoujo mangás. A primeira peça da Rosa de Versalhes foi encenada pelo Takarazuka em 1974, e o teatro, cuja audiência é basicamente feminina, que na época vinha perdendo importância frente novas formas de divertimento, voltou a ser popular. (SATO, 2007, p. 142) Desde a primeira montagem já ocorreram mais de 1400 apresentações, com duas peças baseadas na série, apresentadas inclusive fora do Japão. Foram duas temporadas, 1974-76 e 1989-91, mas novas apresentações foram feitas para comemorar os 250 anos de nascimento de Maria Antonieta e nas celebrações de aniversário do mangá. A Rosa de Versalhes é o maior sucesso do Takarazuka depois da II Guerra. (ROBERTSON, 1998, p. 74-75)

UMA OBRA FEMINISTA?

Como estudante de Filosofia na segunda metade dos anos 60, Riyoko Ikeda não podia estar alheia às discussões feministas. Cristiane Sato enfatiza, em seu capítulo sobre a Rosa de Versalhes, que o início dos anos 70 foi uma época grande agitação social no Japão, com várias manifestações estudantis e dos movimentos feministas. Foi também o momento em que muitas jovens começaram a sonhar com uma carreira, mesmo que temporária, e com o amor romântico em substituição aos casamentos arranjados. (SATO, 2007, p. 50-51) A própria Riyoko Ikeda comentou em uma entrevista a respeito das ansiedades das mulheres de sua geração: (...) as pessoas da minha geração que queriam expressar um sentimento ou contar uma história e até esse momento só haviam podido fazer isso através dos romances ou da poesia, descobriram um novo modo de expressão igualmente válido: o mangá. As mulheres também descobriram o mangá e se interessaram por esse novo meio. (...) Finalmente, ao terminar a guerra as mulheres japonesas já não podiam continuar sendo donas de casa e cuidando dos filhos: sentiam que precisavam trabalhar para levantar o país e contribuir para manter a família. As

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que puderam buscaram um trabalho que as compensasse não só economicamente, mas também psicologicamente, um trabalho ao qual se dedicar por toda a vida.15 A experiência social como mulher, compreendida como o percurso de sua construção pessoal em uma dada sociedade, é algo profundamente histórico e cultural. As experiências da autora terminaram por conduzi-la a reflexões sobre a condição das mulheres na sociedade japonesa de sua época e, talvez, em outras épocas e lugares. É possível perceber isso claramente na Rosa de Versalhes. Enquanto feministas de vários países teorizavam nas academias e em grupos políticos, quadrinistas japonesas da geração de Ikeda colocavam em suas obras de ficção suas inquietações sobre os papéis de gênero e a rigidez com que os espaços estavam demarcados em sua sociedade. Assim, as discussões de ponta do feminismo eram adaptadas para os quadrinhos e disponibilizadas para a grande massa de leitoras, a maioria na puberdade. Como pontuei anteriormente, Ikeda rompe com o binômio sexo-gênero, além de desnaturalizar a idéia de que o corpo seria uma realidade pré-discursiva. Nesse sentido, ela precede Judith Butler para quem "não se pode dizer que os corpos tenham uma existência significável anterior à marca de seu gênero". (BUTLER, 2003, p. 27) Na obra de Ikeda é o gênero que constrói os corpos, atribuindo-lhes sentidos, um destino, uma função social. Há uma passagem da série que ilustra bem isso que é quando Oscar decide vestir-se como "uma dama" pela primeira vez, movida pela atração que sente pelo Conde Fersen. Ikeda mostra com humor o drama da personagem que não está acostumada às disciplinas do corpo feminino. O espartilho a sufoca, a barra do vestido restringe seus movimentos, o salto alto a faz desequilibrar e ela cai e jura que nunca mais se submeterá a tal tortura. Nesse sentido, Ikeda antecede também Teresa de Lauretis, pois acaba construindo uma situação onde fica claro que o gênero é "o conjunto de efeitos produzidos em corpos", de forma

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"(...) la gente que quería expresar un sentimiento o explicar una historia y que hasta ese momento solo había podido hacerlo a través de la novela o la poesía, descubrió un nuevo modo de expresión igualmente valido: el manga. Las mujeres también descubrieron el manga y se interesaron por este nuevo medio. Finalmente, al terminar la guerra las mujeres japonesas ya no se podían quedar haciendo de amas de casa y cuidando a sus hijos: sentían que tenían que trabajar para levantar el país y contribuir a mantener la familia. Las que pudieron buscaron un trabajo que las compensara no solo económicamente, sino también psicológicamente, un trabajo al cual dedicarse de porvida."

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que Oscar não poderia tornar-se automaticamente uma dama perfeita como em um passe de mágica e, mais, ela também não o desejava. (LAURETIS, 1994, p. 208). Interessante é que na animação, que funciona como uma releitura masculina do quadrinho, Oscar consegue dominar todo o aparato de feminilidade sem problema algum, é como se seu eu interior feminino se manifestasse, afinal, ela estaria dando vazão à sua natureza. Assim, ela desliza linda e loura sem nenhum incômodo.

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Figura 7: Oscar sofre ao tentar se vestir como uma dama. Riyoko Ikeda, A Rosa de Versalhes, vol. 1, 1987, p. 712.

Esta idéia não está presente no original, nem a frase dita por André em outra parte da série animada para lembrar a Oscar que não adianta lutar contra a sua "natureza" feminina: "Uma Rosa será sempre uma rosa, uma rosa nunca poderá ser um lilás". Muitos fãs ocidentais consideram tal frase extremamente romântica, mas ela somente expressa de novo a ênfase na naturalização dos comportamentos, na idéia de destino biológico. São as expectativas culturais

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em torno do desempenho de certos papéis que possibilitam que os corpos sejam moldados como femininos ou masculinos, e não há nada de natural nisso, não na Rosa de Versalhes de Riyoko Ikeda. Sonia Bibe Luyten é muito crítica a respeito dos shoujo mangá e os vê como instrumento de reforço dos papéis tradicionais femininos. Assim, a autora diz em seu livro Mangá ­ O

Poder dos Quadrinhos Japoneses que o fato das mulheres fazerem quadrinhos de massa no Japão poderia despertar inveja nas colegas de outros países, porém o que "(...) poderia ser um passo, uma condição especial para que a mulher construísse sua imagem e até fosse um agente modificador", nada produz, porque as autoras "de posse da ferramenta (...) ainda martelam no mesmo lugar" (LUYTEN, 2000, p. 85). Pergunto-me se tal pessimismo procede quando nos deparamos com obras como a Rosa de Versalhes, ou é fruto da estranheza em relação aos shoujo mangá, algo totalmente japonês, com estruturas próprias e contraditório, como qualquer outra mídia. Aliás, qual veículo de massa não oscila entre o revolucionário e o já dito? O novo e o tradicional? Será que realmente isso indica que se martela em um mesmo lugar? É possível pensar assim depois de falas como as de Machiko Satonaka e Riyoko Ikeda?

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Rosa de Versalhes de Riyoko Ikeda representa um marco tanto em termos de representação histórica dentro dos quadrinhos japoneses quanto em relação à construção das personagens femininas nos shoujo mangá. A série é um testemunho da capacidade das autoras de mangá de colocar dentro de suas obras tanto as questões imediatas ligadas ao seu campo de experiências, vivências e demandas, e também, de articular questões de cunho mais amplo, histórico, social, e apresentá-las de maneira didática e acessível mesmo ao público infanto-juvenil. Considero que a Rosa de Versalhes é uma obra que incorpora consciente ou inconscientemente as discussões feministas que estavam ocorrendo nos anos 60 e 70, além de antecipar discussões que são muito caras às teóricas feministas atuais, como a naturalização do corpo ou o binarismo sexo-gênero. Partindo da experimentação e da ousadia, a Rosa de

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Versalhes abriu caminho para toda uma série de mangás que desconstruíram as relações de gênero e discutiram o desejo e os lugares sociais femininos e masculinos na sociedade japonesa, em outras épocas históricas, ou mesmo em outros planetas e universos.

Figura 8: Oscar participa da Revolução Francesa e é desenhada por Ikeda incorporando os símbolos desse movimento, como a bandeira tricolor. Riyoko Ikeda, A Rosa de Versalhes, vol. 2. Ilustração avulsa especial sem número de página.

Nesse sentido, mesmo que Ikeda pareça tímida em abordar algumas questões, como a homossexualidade feminina, ela é exemplar em outras e oferece para suas leitoras de uma só vez o sonho de um relacionamento equitativo entre homens e mulheres, e o incentivo para que as meninas tomassem as rédeas de seu destino, como a personagem fez ao lutar por sua carreira militar, e ao decidir-se contra sua classe e seus deveres por André e, também, pela Revolução Francesa.

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