Read Untitled-2 text version

O MAIS VASTO LITORAL DO NORDESTE Dizem que o Litoral Oeste-Vale do Curu é uma região de três climas: litoral, sertão e serra. Para nós, porém, foi o espaço das praias semi-desertas, das areais volantes e das súbitas lagoas. Foi também a região dos portos de canoas e botes, das velas quadrangulares e das últimas salinas. Mais que barcos e dunas, ali, o vento esconde e revela histórias de igrejas soterradas ou de antigas aldeias indígenas. Coqueirais sem fim, cercados por vigilantes, padres reacionários e bangalôs de veraneio, ocupam as melhores encostas. Nos vãos de terra livre, porém, de novo os pobres se assentam, abraçando o resto da mata atlântica que ainda resiste, feito uma comunidade quilombola. Ao lado dos mangues, onde habitam ostras e caranguejos, os caboclos dançam o coco e o reisado de papangus, Os carros atravessam os rios sobre balsas e os bugres riscam de trilhas as colinas arenosas, enquanto no ar a brisa desenha miragens. O resto é céu e mar em sua imensidão. Santa Adelaide e Santa Maria Selina, roguem por nós.

Para realizar a primeira etapa da viagem, nos hospedamos em Itapipoca, eu, Kally Karine, a fotógrafa Francesca Nocivelli e Eudes Freitas. Começamos na tarde do dia 11 de abril, com o costumeiro passeio pelo centro da cidade. Buscamos informações e registramos casas, igrejas e praças. De noite, fizemos nosso plano de viagem. No dia seguinte, logo pela manhã, já estávamos em Itarema. Passamos pelo Distrito de Santo Antônio, onde fizemos uma pequena parada na Ponte Vila Nova. Entramos pela zona rural e fomos até o Assentamento Lagoa do Mineiro, que eu já conhecia bem. Na Escola Municipal São José, pegamos nossa guia, Ivanisa Martins, presidente da Associação dos Assentados e líder comunitária, que conhece a região como ninguém. Ela nos levou ao distrito de Patos, onde iniciamos por uma visita à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, onde estão enterrados os Fredericos, antigos proprietários daquelas terras. Era época de farinhada, plena Semana Santa, e o povo estava fazendo bolo de goma. Sobre este costume, ouvimos Luiza Marques, de 59 anos, e Maria Marques Tavares, de 80 anos, que nos um antigo engenho e um descaroçador de algodão. Depois, visitamos Laura dos Santos, uma ancião centenária, filha de índios e senhora das lembranças mais longínquas sobre o lugar. Como sua voz era muito baixa, entrevistamos sua filha Maria Adelaide dos Santos, que nos narrou a história da mãe e do avô, que era secador de açúcar, assim como detalhes sobre a vida em Patos. Terminada a visita, passamos pelas terras de propriedade da Empresa Ducôco, atravessamos o rio Aracati Mirim e aproveitamos para ouvir Elias Sousa Santana, o dono da balsa, que transportou nosso carro. Passamos pelo Distrito de Torrões para fazer o registro de seu trapiche e chegamos, enfim, à famosa Almofala dos Tremembé. Fomos direto ao santuário dos índios Tremembé, visitar a Escola Maria Venâncio, que faz uma experiência de ensino diferenciado para indígenas. Entrevistamos Raimunda Marques do Nascimento, a Raimunda Venâncio, de 35 anos, professora da escola. Falou-nos de sua infância e de como era a vida em Almofala, das brincadeiras das crianças, do episódio do soterramento da igreja e de como a comunidade ajudou a desenterrá-la com o auxílio de cuias. Explicou como funciona a escola e os rituais repassados para os alunos. Terminou falando sobre a questão da terra, em Almofala. Em seguida, visitamos a lendária Igreja de Nossa Senhora da Conceição, ouvindo o guia turístico local, Geraldo Neves, um jovem de 25 anos, que nos passou as informações sobre a igreja e nos revelou a descoberta de sua identidade indígena, a partir de um contato que teve com Maria Amélia, uma militante dos movimentos da igreja católica, assim como da existência de questões entre índios e setores da população local. Sobre as mesmas temáticas, entrevistamos o Padre José Raimundo de Oliveira, pároco da Matriz desde dezembro de 2003, que nos ofereceu um generoso café na casa paroquial e criticou o trabalho de setores de sua própria igreja, por ter provocado conflitos entre brancos, índios e assentados, na região. O terceiro município a ser por nós visitado foi Amontada. Saímos bem cedo, no dia 13 e fizemos uma parada no Distrito de Barrento, em Itapipoca, para gravações de imagens. Chegamos ao Distrito de Sabiaguaba, em Amontada, num povoado por nome Caetano de Baixo, onde também fizemos registros visuais e paramos na praia vizinha, de Caetano de Cima, nosso objetivo. Fizemos contato com a líder da comunidade, Valneide Ferreira de Sousa, de 35 anos. Ela dirige a escola pública do lugar, coordena o Ponto de Cultura do Assentamento, onde mora, e o Grupo de Mulheres. Mulher forte e inteligente, além de nos conceder uma entrevista acerca da origem do povoado, guiou-nos na visita à localidade. Fomos à sede da Associação dos Pequenos Agricultores e Pescadores de Sabiaguaba, onde fizemos o registro do artesanato produzido pelas mulheres. Lá, entrevistamos Francisco Manuel de Sousa, um senhor de 75 anos, brincante de coco. Ele narrou sua vida em Sabiaguaba, explicou como se brinca o coco e o reisado e contou histórias de trancoso. Conversamos, ainda,

com a rezadeira Geralda Sousa Santos, de 70 anos, que além de seu ofício e de sua história de vida, relatou-nos as dificuldades da luta pela terra, desenvolvida pelos pobres contra a opressão dos poderosos. Entrevistamos, em seguida, os pescadores Francisco Valiris de Sousa, de 21 anos, Manuel Sales dos Santos, de 34, que nos falaram da vida na pesca, aprendizado, naufrágios e façanhas. José Barbosa Soares, o José Nel, de 47 anos, também pescador e membro da Associação, deu um depoimento sobre os confrontos pela terra e sobre o trabalho da teologia da libertação, ali desenvolvidos, na década de 70. Acentuou a luta dos moradores contra os posseiros e o conflito provocado por estranhos entre as duas comunidades de Caetano. Entrevistamos, ainda, as senhoras, Alvina de Sousa, de 66 anos, que nos contou sua vida e falou sobre o movimento das mulheres, e Teresa Ribeiro da Silva, de 60 anos, brincante de coco, que nos relatou casos acontecidos antigamente e o movimento da dança do coco. O dia 14 foi dedicado ao município de Tururu. Pela manhã, fomos ao Distrito de Conceição dos Caetanos, onde habita a comunidade negra, talvez, mais bem organizada do Estado. Começamos fazendo o habitual passeio pela praça da Matriz, onde registramos a Igreja de Nossa Senhora das Graças e conversamos com alguns moradores locais. Todos nos aconselharam a falar primeiro com Maria Caetano de Oliveira, a Dona Bibiu, líder da comunidade. Assim, fizemos. Uma negra simpática e muito bem conservada, de 66 anos, Bibiu nos recebeu com a familiaridade de quem é acostumada a tais visitas. Narrou a história dos seus pais de uma mulher, chamada Ana Rosa, que esteve na comunidade, na década de 70, trabalhando a questão da consciência racial e de como as duas se atritaram, tornando-se grandes amigas posteriormente. Segundo Dona Bibiu, vivem atualmente na comunidade em torno de 207 famílias, com média de seis pessoas por cada.

Na casa da própria Bibiu, fizemos fotografias dela e do seu esposo, Pedro Caetano, de 79 anos, e conversamos com Eduardo João Caetano, o Seu Turral, de 60 anos, tio de Dona Bibiu, que nos falou de sua infância e nos contou histórias de trancoso. Pela tarde, assistimos e fizemos o registro áudio-visual de uma encenação da Paixão de Cristo, protagonizada pelos moradores da comunidade. Ritual simples, mas de extremo bom gosto. Na volta de Conceição dos Caetanos, passamos pelos distritos de Cemoaba, para o registro de cenas do cotidiano, e de Siridó, onde realizamos uma entrevista com Manuel Moreira, de 89 anos, tirador da dança de São Gonçalo. Ele nos falou da dança e da participação de seus filhos no folguedo, João Moreira de Freitas e Francisco Wilson Moreira, também presentes à entrevista.

No Trairi, para onde fomos no dia 15, tivemos como guia minha irmã, Cristiana Barroso, que nos indicou o pescador e mestre da dança do coco, Moisés Cardoso dos Santos. Nos recebendo em sua casa, na localidade de Alagadiço, Moisés narrou histórias de sua vida, desde a lembrança de seus bisavós indígenas, cantou casos acontecidos no mar e descreveu pormenorizadamente as variações da dança do coco. Depois da entrevista, na sala de frente de sua casa, ele reuniu familiares e parentes, numa demonstração de coco improvisada, em que não faltou animação. Participaram da brincadeira, além de Moisés, seu filho Francisco Alexandre, de 21 anos, seu neto, Francisco Thiago, de 13 anos, e outras crianças, entre elas, Antonio Carlos, de 10 anos, Rosa Cristina, de 14 anos, e Marcos Antônio, de 10 anos. De Alagadiço viramos em direção à praia e registramos, na seqüência, as paisagens de Mundaú, Emboaca, Flecheiras e Guagiru. Nesta última, passamos pela casa de Dona Helena, artesã que faz objetos com papel de jornal, quadros com búzios e trabalhos outros em palha. Infelizmente, ela não estava, porque pelo que vimos de sua casa e de sua oficina de trabalho, deve ser uma mulher interessantíssima. Encerrando a visita, fomos até o povoado de Esperinha, onde entrevistamos o Caboclo do Boi, Francisco Barbosa de Lima, Seu Todi, e os brincantes do Reisado de Caretas, que comanda: Manuel Barbosa de Castro, o Caçula, José Furtado Sousa, o Zé Branco, e Francisco Castro de Sousa. Juntos, eles reconstituíram para nós toda a brincadeira da qual fazem parte. Ficamos em Itapipoca, no dia 16, onde fomos até o Alto da Maria Cacaca, para gravar o depoimento da cantora de dramas, Maria Teixeira Cardoso. Ela nos contou a história de sua família, como conheceu seu esposo, o rabequista Raimundo Veríssimo, e como ficou cega. Em seguida, cantou alguns dramas e canções que interpreta, acompanhada por seu marido, na rabeca. De volta à sede do município, conversamos com a carnavalesca Maria Socorro de Andrade, de 63 anos, sobre as escolas de samba e os maracatus, que desfilam no carnaval de Itapipoca. No final da tarde, fizemos o registro audiovisual do Açude da Nação, dentro da cidade. Estava programado um Encontro com o Mestre para São Luiz do Curu, no caso uma reunião da mestra do município, Dona Maria Edite Ferreira Menezes, com os estudantes e interessados da comunidade. Maria Edite tem 54 anos e fabrica redes de travessas, um modelo de rede de feição tipicamente indígena, originalmente feita de tucum, mas que ela faz com fios de algodão.

É um trabalho primoroso, que inclui todas as etapas de fabricação, inclusive a confecção das varandas, feita em renda. Gostei particularmente de uma amarela, com as varandas brancas, que acabei comprando. Após mediar a conversa da mestra com os estudantes, ouvimos Raimundo Nonato de Moura, o Raimundo Cantador, também presente ao encontro, que improvisou versos para as crianças. Na casa de Maria Edite, onde fomos em seguida, ouvimos seu depoimento sobre a confecção da rede de travessa, que contou com a colaboração de seu esposo, Raimundo Estevão de Menezes, também um especialista no assunto. Na tarde do mesmo dia 17, estivemos em Pacacuru, onde ouvimos, inicialmente, o pescador Francisco Alcides de Lima, de 76 anos, contando histórias da vida no mar. Sua esposa, Hermelinda Carneiro de Souza, presente à ocasião, nos falou sobre a dança de São Gonçalo, como é praticada no lugar. Em seguida, fomos à casa de Raimundo Nonato Bezerra, de 83 anos, conhecido como Cão de Barro, antigo rezador e contador de histórias. Como já lhe faltasse a memória, ouvimos suas filhas, Maria de Lourdes e Maria Janice, que nos falaram sobre a origem do apelido e acerca dos saberes do pai. No dia 18, resolvemos mudar nosso local de hospedagem para Camocim, por ficar mais perto dos municípios que iríamos visitar. No caminho, paramos em Ipaguaçu, para fazer o registro audiovisual de seu Centro de Artesanato, da Gruta e da Igreja de Nossa Senhora de Lourdes. Paramos, ainda, em Senador Sá, para registros fotográficos e, finalmente, chegamos a Camocim, onde eu já havia estado, recentemente, durante a festa de São Pedro. Fizemos a costumeira visita à Secretaria de Cultura, onde a Secretária Vanda Coelho nos passou informações, para cairmos em campo. Ouvimos, primeiramente, Angelino Bezerra Lima, o Homím, um pescador de 59 anos, que nos contou sua infância, em Jericoacoara, seu trabalho no mar e nos ajudou a compreender a especificidade das diversas embarcações existentes no porto de Camocim. Na seqüência, entrevistamos os pescadores e brincantes de reisado, Pedro Antônio Augustin, de 50 anos, e Antônio Carvalho dos Santos, o Doidim, de 78 anos, acerca da tradição da brincadeira do Boi no lugar. Durante a entrevista, um famoso brincante de Boi local, conhecido como Tio Neném, apareceu embriagado, mas mesmo assim cantou algumas canções e disse alguns relaxos tirados do brinquedo. No dia seguinte, quando de viagem a Uruoca, na saída de Camocim, paramos num cruzeiro de beira de estrada, onde um casal depositava ex-votos. Entrevistamos o marido, Francisco Alves, que nos informou tratar-se do lugar onde havia morrido, em acidente, uma jovem por nome Maria Selina, tida como santa pelo povo. Acerca do assunto, ouvimos dois moradores de casas próximas, Elizângela Maria Augusto dos Santos e Francisco das Chagas dos Santos. Eles nos falaram da romaria existente no lugar, particularmente no Dia de Finados, e de algumas graças alcançadas. Chegamos a Uruoca pela tarde e entrevistamos Raimundo Francisco das Chagas, o Raimundo Chicó, de 91 anos, curandeiro e encomendador de almas, que rezou orações e cantou benditos. O segundo a ser ouvido foi João Martins de Araújo, o João Catiamba, de 76 anos. Além de nos contar sua vida, narrou histórias de trancoso e tocou gaita. O dia 20 foi de Chaval. Desta vez, começamos pelo cemitério, que nos chamou a atenção pelos blocos de pedra existentes na vizinhança, o que propiciou belas fotografias. Depois, saímos para um passeio pelo centro da cidade, onde encontramos nosso guia, Fabrício de Souza Silva, um garoto de 12 anos. Ele começou por nos levar à casa de Antonio Durval Filho, o Tadeu Durval, de 47 anos, que se assina como `o poeta esquecido'. Durval mostrou suas poesias publicadas em folhetos, e n 15 folhetos decorados. Seu filho, Antônio José, de quatro anos de idade, aproveitou a deixa do pai e cantou canções falando sobre a vida de santos. Ainda em Chaval, visitamos Cícero Erivelton dos Santos, um desenhista de 40 anos, que nos falou de sua vida e de sua arte. Pela tarde, fizemos um contato na Secretaria de Educação e Cultura, onde conseguimos algumas informações com a funcionária Joselina dos Santos Araújo. De lá, fomos às salinas. Estivemos no dormitório que o Sindicato de Trabalhadores mantém no local e ouvimos alguns dos arrumadores nos galpões de sal. Sobre as precárias condições de trabalho na exploração do sal, ouvimos o carregador e arrumador de sal, Francisco Antônio Alves Rodrigues, de 20 anos, e o Presidente do Sindicato dos Arrumadores e Trabalhadores de Sal, Francisco Irismar, de 42 anos. Ainda no dia 20, fomos ao município vizinho, de Barroquinha. Na Secretaria, o Diretor de Cultura, Francisco Lourenço, nos passou informações que orientaram nosso trabalho. Começamos por Maria Estela Roberto de Oliveira, uma senhora de 58 anos, que canta dramas e tira reis, de porta em porta. Sua mãe, Regina Roberto de Oliveira, de 92 anos de idade, também participou da entrevista. Ouvimos, em seguida, o rezador Raimundo Flor de Arruda, de 65 anos, que nos contou alguns segredos de sua arte, particularmente, das curas que realizou em novilhos, e disse algumas rezas. Começamos o dia 21, passeando pelo belíssimo porto de Camocim, onde fizemos registros em vídeo digital e fotografia. Depois, voltamos a Barroquinha, mais precisamente à praia de Bitupitá. Iniciamos pela sede da Colônia de Pescadores Z 23, onde observamos uma oficina de bijuterias, confeccionadas com búzios, que reunia 25 alunas. Na vizinhança, conseguimos nossa guia, Sônia Veras de Carvalho, uma menina de 12 anos. Ela nos levou até a Igreja de Santa Adelaide, onde fizemos registros

fotográficos e em vídeo digital. Adelaide era uma moradora do lugar, de nome Adelaide Elias Tahim, que por ser muito caridosa e ter morrido com sofrimento, é tida como santa pelos moradores de Bitupitá. Seu túmulo, visitado por nós, encontra-se num pedaço de praia conhecido como Pontal das Almas e é centro de romaria. Neste lugarejo, ouvimos Gilberto Alonso Veras, o Bigode, de 57 anos, e seu filho, Rosivaldo dos Santos Veras, de 24 anos, que nos falarem sobre os costumes da localidade e acerca dos milagres de Santa Adelaide. No final da tarde, fizemos um passeio pela praia, para registrar a chegada dos barcos com peixes. Em seguida, voltamos ao povoado, onde entrevistamos Jonas Ferreira Veras, o Presidente da Colônia de Pescadores, sobre o trabalho na pesca, e Dona Rosa Teles Veras, uma senhora de mais de 90 anos de idade, que nos falou da devoção a Santa Adelaide. No dia 22, saímos de Camocim, atravessamos a foz do rio numa balsa e demos uma parada na outra margem, um lugar belíssimo, conhecido como Ilha do Amor, para registros audiovisuais. Em uma camionete tracionada, da Secult, pusemo-nos a atravessar dunas, por nós devidamente registradas, até chegar à praia de Tatajuba. Ali, conversamos com o pescador Manuel Pedro de Araújo, de 62 anos, acerca de suas brincadeiras e danações de criança nas dunas. Depois, ouvimos o pescador e brincante de reisado, Manuel Ricardo de Araújo, de 83 anos. Em seguida, fomos até a casa de Antônio Edson Pontes, o Capitão Bola, pescador de 47 anos, que nos falou sobre a brincadeira de reisado que comanda. Deixamos Tatajuba, paramos em Guriú e fomos até a localidade de Mangue Seco, em Gijoca de Jericoacoara. Lá, entrevistamos Luís Quirino de Souza, um pescador de 64 anos, que nos relatou sua vida em terra e no mar. Voltando para Camocim, paramos na Lagoa da Torta, para registros fotográficos. No dia seguinte, 23 de abril, regressamos à Fortaleza, com uma parada em Martinópole, onde tentamos localizar algumas pessoas interessantes para entrevistas, mas tivemos dificuldades, principalmente pela precariedade das informações, que possuíamos, e por tratar-se de um domingo. AS HISTÓRIAS DA CEGA QUE VIA VISAGENS Eu sabia que a casa ficava, no Alto da Maria Cacaca, à beira da estrada que liga a cidade de Itapipoca ao litoral. Já estivera lá uma vez, com o Orlângelo Leal, visitando Seu Raimundo Teixeira, para ouvi-lo tocar sua rabeca. Conhecera Dona Maria Teixeira, mas não havia prestado atenção a ela. Daí que por um lado foi bom, Seu Raimundo não estar. Acometido de uma doença, ele baixara hospital e estava em Itapipoca. Por isto, abriu-me a oportunidade de conhecer melhor sua esposa. Ela nos recebeu e logo corrigiu o nome do Alto que estávamos chamando Maria Tacaca. Explicou: - Maria Cacaca é um bicho quase que seja um peba, mas é uma caça corrredeira como um bacurim. Tinha muito por aqui e o pessoal acabaram chamando esse lugar aqui por isso. Depois, não se fez de rogada e cantou uma música que trazia na ponta da língua: - Lá vem ela gingando as cadeiras/Lá vem ela com a lata na mão/Lá vem ela descendo a ladeira...Vamos lá pra casa meu grande amor/ batendo numa lata/cantando um samba de amor. Maria é dessas entrevistadas, que não dá trabalho, fala e fala. Pedi que ela nos contasse a história de sua vida e deixei que falasse. Sentada, numa cadeira, na sala de visitas de sua casa, ela não economizou palavras. De nome completo Maria Teixeira Cardoso, nasceu em Cachorro Magro, uma localidade de Itapipoca, próxima a Coelho, no ano de 1935. Quando veio ao mundo, os pais eram pequenos sitiantes e trabalhavam na roça. Depois tiveram que se mudar. Venderam a terrinha que possuíam e se transferiram para Lagoa do Mato, obrigados por uma visagem que lhes arruinou a vida. ­ Uma visagem, dona Maria!? Admireime. ­ Foi sim, essa visagem eu já contei ao professor Gilmar (de Carvalho). Deu uma fita todinha. Ele anda com ela pelo mundo, com essa visagem que atentava nós e matou meu irmão. Pedi que contasse desde o começo, mesmo que dessem duas fitas. Disse que quando ela e suas irmãs eram meninas, o finado Ataliba cedeu uma capoeira à sua família, para que tirassem lenha. Contou: ­ Aí o pai mandou nós ir buscar. Quando nós chegamo lá, que as meninas começaram a puxar lenha pra fazer o feixe, um toco grande de sabiá, desta altura, desta largura, com uma voz que saia de dentro, deu uns gemidos tão grandes que estremecia o chão. As meninas correram com tanto medo, que até esqueceram a lenha. O pai não acreditou: - Vocês estão é com invenção, pra não trazer a lenha. Amanhã eu vou com vocês! E foi. Quando chegou, perguntou: - Meninas, aonde é o toco do gemido? As filhas mostraram: - Lá está, é aquele! O pai, que era caçador, escorou a espingarda assim num toco e disse: - Agora, eu quero que apareça o gemido aqui! Não apareceu. Maria e as irmãs arrumaram a lenha e saíram, sem que o gemido desse sinal de vida. No outro dia, as crianças foram sozinhas e lá o gemido se manifestava. Aí, a mãe de Maria pegou a brigar com o pai dela, para que ele mesmo fosse botar a lenha. Disse: - Raimundo, tu dá em botar lenha senão essas crianças vão se assombrar! Então o pai, a partir daquele dia, foi ele mesmo botar lenha, mas nada, parecia que a assombração havia se acabado. Uma noite, porém, os pais de Maria, como de costume, haviam saído e só chegariam lá pras 10 horas da noite. Quando anoiteceu, assim pelas seis horas, como sempre faziam, as meninas correram para botar lenha no fogo. Fizeram aquele fogo bem aceso na cozinha e ficaram na sala do meio. Antigamente, casa de pobre não tinha porta, separando os cômodos, e Maria com as

irmãs ficaram vendo da sala do meio o fogo lá na cozinha. Depois, foram se deitar e, das redes, viram quando chegou aquela vaca grande, "aquele bicho virado numa vaca, as orelhas deste tamanho, desta largura, os olhos do tamanho ... Passou aquele bicho na direção do fogo, voltou, tornou a passar, olhando pra onde nos tava, dentro do quarto!" As meninas em tempo de morrer de medo. O bicho passou três vezes, com a boca cheia de osso, foi até a beirada do fogo e voltou. Até que chegou no fogo e tchuco, tchuco, tchuco, apagou os tições, um por um. A escuridão fez-se completa. As meninas tremiam de medo: - Pronto, agora ele vem comer nós aqui dentro! Então, o bicho desemborcou o pilão de pisar café, pegou a mão e tuco, tuco, tuco, pilando! Pisou, até a mãe de Maria chegar. Toda noite a cena se repetia, bastava que os pais de Maria saíssem. A mãe ainda ouvia o barulho do pilão. ­ Quando a minha mãe vinha assim numa altura, perto de casa, dizia: Ô meu Deus, Raimundo, minhas filhas tão pra morrer de medo em casa! O pilão chega tá pisando direto. É a alma pisando. Raimundo nunca escutou, só a mãe ouvia. Quando os dois chegavam bem perto de casa, a alma emborcava o pilão e ia embora. ­ Ai quando eles chegavam, nós tava morta dentro da rede, toda cansada de tá embrulhada. Só deixava os olhos de fora pra ver se ela num entrava pela camarinha. Um dia, Raimundo foi buscar água e as meninas ficaram no terreiro. Faltou lenha e Antero, irmão de Maria, disse: - Negada, num tem nem um pau de lenha, vou já caçar lenha! Aí, a irmã mais velha respondeu: - Antero, num entra nessa mata, que já tá escuro. Ele teimou: - Vocês ficam aqui no terreiro, que eu vou quebrar uns pauzinhos por ali, só pra quando o papai chegar, nós tá no claro, se não ele briga com nós! A irmã ainda insistiu: - Não vá não, que já são seis horas! Mas ele: - Eu vou, eu vou! Entrou na mata e as meninas ficaram no terreiro, que era muito grande. Antero saiu quebrando lenha, fazendo um feixinhos e botando no chão. Quando ele já havia feito três feixes, abaixou-se para pegar e levar embora, que se levantou e ficou em pé, uma alma abriu os braços no rumo dele e ficou empatando o caminho. Ele corria para um lado e a alma corria também, com os braços abertos, sem deixar ele passar. Assim, a alma foi empurrando ele para o mato, cada vez mais para dentro. Quando já estava bem dentro e viu que num tinha jeito, Antero soltou a lenha no mato e papocou-se no mundo, a alma correndo atrás. Quando Raimundo chegou e soube da história, saiu caçando o filho dentro do mato, mas nada. Já eram quatro horas da madrugada e Antero havia corrido a noite toda. Até que atravessou uma cerca e caiu do outro lado. A alma parou do lado de cá da cerca e ficou caçando buraco para entrar. Como tinha as canelas duras e dois dentes muito grandes, não arranjou modo de passar. Além disso, só andava com os braços abertos. Então a alma disse: - Tu hoje só num vai comigo, porque esses dois dentões que eu tenho num passam cerca, se passassem, hoje tu ia comigo! Antero levantou-se, bem caladinho, saiu no rumo da casa de farinha, do vizinho, e escondeu-se dentro do forno.

Raimundo andava procurando o filho, na companhia de um vizinho por nome Zé Rodrigues, com um farol aceso na mão. Seguiu o rastro de Antero até a casa de farinha, mas quando este viu a luz do farol, correu e pulou a cerca. Raimundo e Zé Rodrigues, ainda perguntaram à mulher do vizinho que havia acordado: ­ Vocês escutaram alguém pular aqui? Ela respondeu: - Eu escutei alguém pular o cercado de botar mandioca. Zé Rodrigues observou: - Tá aqui o rastro dele. Agora, Raimundinho, tu fica aqui, que eu vou preparar uma cilada acolá e vou atalhar ele lá na estrada. Raimundo demorou-se um pouco e depois saiu na direção do rastro de Antero com o farol aceso. Quando este viu a luz, deu uma carreira no rumo da estrada. Zé Rodrigues já estava lá, escondido. Eram umas cinco horas da manhã e já se distinguiam as pessoas no caminho. Antero foi passando e Zé Rodrigues caiu em cima dele. Pegou pelo braço, mas Antero não conheceu o outro. Raimundo se chegou, porém o filho, em estado de choque, também não o reconheceu. Antero gritava e esperneava, tentando escapar dos dois, por mais que eles se identificassem. Só quando o dia clareou por completo, Antero acalmou-se.

Levaram ele pra casa, os dias se passaram, e as meninas, irmãs dele, sempre pediam, contendo a risada: - Antero, conta a história da alma que tu viu! Como foi? Ele respondia, adivinhando a gozação: - Se um pai de família ou uma mãe de família chegar aqui pra eu contar a história, eu conto. Mas se chegar rapaz solteiro ou moça solteira, eu não conto. Para ele era a coisa mais séria do mundo. Passou-se. Até que um dia, Raimundo saiu para buscar água e Maria ficou na cozinha com as irmãs. Antero, o irmão, fazia fogo, e as meninas esperando, com medo de entrarem no quarto sozinhas e verem a visagem. Quando deram fé, lá vinha uma cachorra passando desconfiada. Então, a Tetê, uma das irmãs, disse: - Olha, Antero, lá vem uma cachorra velha passando. Tu num bole com ela não, deixa ela passar. Foi mesmo que dizer o contrário. Antero nem quis saber: - Eu num bulo com ela!? Ela pode passar desconfiada, que eu sacudo uma lasca de lenha nela. Tetê ainda protestou: - Não, Antero, por caridade, num bole com ela

não! As crianças todas na cozinha, a cachorra passou desconfiada e não olhou pra ninguém. Foi e ia atravessando uma cerca pegada à casa, metade para fora, metade para dentro... Aí, quê que faz o Antero!? Sapecou-lhe a lasca de lenha, mas não pegou nela. O que acontece? Ela, em vez de ir adiante, volta, e ele com as mãos abanando, sem uma defesa. ­ Rapaz, num prestou não! A cachorro voltou, brigou com ele até cansar. Ele, um rapazote de 13 anos, sacudia ela bem acolá, mas quando ela se levantava, vinha com tudo. Nós, mulher, corremos pra dentro. Certo é que Antero ficou nessa luta, sem poder se socorrer de uma lasca de pau. Pedia um cacete, uma pedra, à sua irmã mais velha, mas ela não tinha coragem. Dizia: - Não, que tu deixa a cachorra morder nós! E ele: - Deixo não. Me dê uma lasca de pau. Mas, a irmã: - Dou não, que eu disse que você num bulisse com ela, você foi bulir!

A luta entre Antero e a cachorra durou muito tempo. Ele já estava todo mordido, sacudia a cachorra longe, mas ela voltava e se agarrava com ele. Até que a cachorra cansou e, quando ele a sacudiu lá, ela se levantou, passou a cerca e foi embora. Antero ficou todo coberto de sangue. As meninas choravam com medo e com pena dele. Pensavam também no pai: - Ai meu Deus, a cachorra agora vai encontrar o papai e a mamãe com as cabaças d'água na cabeça, e vai rasgar eles!

Não demorou nada, Raimundo e a mulher chegaram de volta. As meninas perguntaram, mas nada deles terem cruzado com a cachorra. Elas contaram a história e mostraram Antero todo mordido, chorando. Naquele tempo, não havia doutor, nem para onde eles levassem um ferido, em Itapipoca. Zé Rodrigues estão se prontificou: - Raimundinho, eu te dou meu cavalo, tu bota esse rapaz em riba e vai dar um banho de mar nele, que ele fica bom. Assim foi feito. Raimundo colocou o rapaz em cima do cavalo e levou ele para Mundaú, onde deram um banho. Ele até que melhorou, na hora. Mas voltou e não agüentou mais que oito dias. Morreu doido, quebrando as varas da parede de taipa. Depois do acontecido, Raimundo ficou desgostoso do lugar, disse: - Chiquinha, eu vou trocar essa serra em gado e nós vamo simbora pra Lagoa do Mato, porque nós num vamo mais morar aqui, onde essa alma perseguideira matou meu filho! Mudaram-se. Toda vez, porém, que Raimundo ia até o Cachorro Magro, sua antiga morada, a alma o acompanhava, montava num jumento e saia atrás dele até chegar em Lagoa do Mato ou Itapipoca, para onde ele fosse.

Nesta altura da narrativa, Maria Teixeira mudou o rumo da conversa. ­ Aí, vamo ver quem era essa alma, porque ela fez isso, anunciou. Voltou ao tempo em que os pais eram solteiros. Raimundo tinha duas namoradas: Chiquinha, a mãe de Maria, uma moça muito tímida, que mal abria a boca, e outra moça lá, faladeira e muito valente. Raimundo gostava das duas, não sabia qual escolher. ­ Quando ele ia deixar a valente em casa, chegava minha mãe e dizia que ainda queria ele. Quando ele ia, nas quarta-feira, pra casa dessa valente, a tal botava um boneco do cão com ele, para deixar minha mãe.

Passou, até que um dia Raimundo teve vontade de se casar e pediu ajuda à mãe. Perguntou: - Mamãe, eu quero me casar, só que eu tenho duas namoradas, uma é valente, a outra é mansa. Eu quero que mamãe me diga com qual eu devo casar, se com a valente ou com a mansa? A mãe respondeu: - Case com a que num é briguenta, porque a mansa acaba os dias da vida junto com você e a briguenta não. Raimundo, então, casa-se com Chiquinha. A briguenta ficou solteira. Depois de muito tempo casou-se, ela também. Meio contrariada, mas casou-se. Quando foi ter o primeiro filho, morreu do parto. Chiquinha não morreu de parto, estava de resguardo do primeiro filho, quando a alma da briguenta veio de lá, com uma luz acesa na mão e chegou no punho da rede dela. Acordou a outra e disse: - Chiquinha tu casou sempre com o Raimundo, num foi? A futura mãe de Maria ficou calada, como era seu costume, olhando para a bicha. A alma continuou: - Eu vou te dizer uma coisa, tu casou com ele, mas eu num deixo tu criar nem um filho homem dele! Chiquinha também não disse nada. Foi justo o que aconteceu. Chiquinha, além das mulheres, teve sete filhos homens. Todos morreram. Antero morreu com 13 anos, Manoel, com 12, e os outros, mais cedo ainda. Das mulheres, morreu uma. Criaram-se Maria, Tetê, Neuza e Valerina. ­ A alma disse que mamãe num criava nem um filho homem e num criou mesmo. Foi desse jeito, a perseguição dela, começou perseguindo minha mãe, depois matou meu irmão, aperreando daquele jeito, e depois ficou aperreando meu pai. Agora, voltando ao tempo em que a família de Maria morava em Lagoa do Mato. Acontece que Raimundo gostava de sair na boca da noite para a casa de algum amigo. Certo dia, quando ele voltava para casa, numa noite de lua clara, ele viu uma cabeça rolando no chão. Então, ele muito corajoso, chegou perto. Disse: - Valha! Quem foi que levou o corpo e deixou essa cabeça aqui? Pegou o cacete, que levava, e começou a bulir na tal cabeça. Foi quando a cabeça olhou para a banda dele e achou graça. Deu aquela risada. Ele ficou só olhando, depois empurrou a cabeça e disse: - Fica-te aí. Quando chegou de volta em casa, disse pra mulher: - Chiquinha tu num sabe quem foi que eu vi hoje! Chiquinha ficou

calada. ­ A cabeça duma mulher, rolando no chão e achando graça no meu rumo. Chiquinha, finalmente, falou: - Também, tu veve inventando essa viagem fora de hora pra mode tu ver essas coisa! Raimundo respondeu: - Mas eu num tive medo não, porque eu sei de quem é a cabeça! Deitaram-se.

Passou-se. Raimundo, três dias depois, foi de novo passear na dita casa. Na volta, umas tantas horas, de um cercado assim pra riba, escutou o choro, cuem, cuem, cuem! Pensou: - Vou olhar, que mulher foi aquela que pariu dentro daquele cercado, que deixou aquela criança! Pulou a cerca de nove fios de arame, entrou mais e viu um ninho de capim enorme. Aproximou-se mais ainda e enxergou, lá dentro, enrolada no capim, uma criança que rolava pra um lado e pro outro. Era um menino alvo, assim de quatro meses, e chorava muito. Pensou: - Mas que mulher malvada foi essa, que deixou este menino no meio do inverno, dentro desse ninho de capim?! Rapaz, eu só num vou levar esta criança, porque num posso passar esta cerca de nove fios de arame. Mas, fica aí neném, que eu volto pra te buscar mais a Chiquinha!

Raimundo passou a cerca de volta e foi pra casa. Logo que chegou, disse apressado: - Chiquinha, pega aí um lençol, Chiquinha! A mulher perguntou, meio nervosa: - Pra quê, Raimundo? Então, ele explicou: - Pra ir buscar um neném. Uma mulher pariu ali dentro do cercado, deixou a criança, ela está lá e vai morrer de frio. Agora, nessa inverneira, se der uma chuva... Chiquinha, que já estava cismada, deu um muxoxo: - Eu!? Eu num vou a parte nenhuma. Raimundo insistiu: - Chiquinha, vambora, porque é do lado de dentro, eu passo e te dou. Eu num posso passar a cerca com a criança. Chiquinha nem assim: - Eu num vou pra parte nenhuma, isso aí num é criança, é o demônio. Raimundo, porém, não acreditou: - É não, mulher. Se tu num for buscar mais eu, num vou dormir nem um tico, de remorso. E Chiquinha: - Num durma. As meninas, deitadas no quarto, só escutando. Raimundo passou a noite, sentado na rede. Nem os pés pra dentro botou. Dizia: - Vou esperar amanhecer. Amanhã vou buscar, que é um meninozinho macho. Naquela altura, ele pensou, seus filhos homens já tinham morrido, e repetiu: - Amanhã vou buscar bem cedo. Foi só o dia clarear e Raimundo correu pra onde havia encontrado o menino, na noite anterior. Quando chegou lá, só viu o canto mais limpo, não tinha nem ninho, nem criança. Voltou pra casa e disse à mulher: - Chiquinha, carregaram o menino e até o ninho! Cheia de razão, ela respondeu: - Ora, só podia, porque aquilo num era gente, aquilo ali era o demônio! Daquele dia em diante, também em Lagoa do Mato, danou-se a aparecer marmota. A família de Maria acabou saindo de lá também. Foram morar no Tapuia, onde passaram 20 anos, uma praia lá pras bandas do Trairi. Depois, mudaram-se para o Alto da Maria Cacaca, onde já moram a quase 30 anos. Essa é a história, que Maria Teixeira mais gosta de contar. Explica, que o faz como uma advertência. ­ Por isso eu digo às minhas filha, que quando elas arranjar um namorado que tiver duas teimando pra querer ele, elas abandone, deixe pra aquela que tá perseguindo mais ele, que pode deixar, porque depois num dá certo desse jeito. Tem gente que diz assim: "quem morre num atenta ninguém". Mas é pessoa que nunca viu na família um atentado por uma alma. Então, eu conto essa história porque se passou com nós, se passou foi com nós! Maria Teixeira tomou gosto pra contar história. Terminada a primeira, se ofereceu para contar mais uma. Esta agora, ela ouviu contada no rádio, por uma menina de seis anos. Foi no programa do Zé Ivo. Maria Teixeira escutou e gravou a história todinha. Era um casal que possuía dois filhos, um menino de nove anos e a menina de seis. Certo dia, a mãe do menino amanheceu com vontade de comer fígado. O marido disse: - Tá bem. Pega, mulher, o dinheiro e manda esse menino comprar o fígo. A mãe entregou o dinheiro ao filho e recomendou: - Chegue cedo que é pro almoço. O menino foi. Quando chegou na metade do caminho, encontrou três garotos jogando bila. Um dos garotos perguntou a ele: - Olha, fulano, pra onde tu vai? O menino respondeu: - Vou comprar figo pra mamãe comer, que ela tá com vontade. Então, o tal garoto convidou: - Pois vambora jogar, pra tu fazer mais dinheiro. Tu ganha e toma esse dinheiro logo. Para dar mais crédito ao que diziam, todos os três garotos mostraram dinheiro. O que estava falando continuou: - Tu ganha esse dinheiro, compra o que tua mãe quer e ainda fica com dinheiro. Quer ver, vamos jogar mais nós?! O menino, porém, teve medo: - Eu não, se eu perder,levo uma pisa, quando chegar em casa. O outro insistiu: - Leva não, besta. Tu ganha é o nosso dinheiro todinho.

Os garotos tanto fizeram, que o menino ficou jogando com eles. Jogaram, até o menino perder o dinheiro todo. Os outros disseram: - Taí, besta, tu agora vai apanhar quando chegar em casa! E saíram correndo. O menino começou a chorar, imaginando o que ia fazer, pra não apanhar quando chegasse em casa. Ele acocorou-se no chão e ficou apalpando a faquinha que levava no cós, enquanto pensava: - Eu levo o figo de qualquer jeito, pisa é que não

levo! O cemitério era perto e o menino resolveu ir até lá. Procurou uma cova nova, olhou, tinham enterrado um bem cedo. Enfiou a faquinha, cavou, cavou, até que achou a tampa do caixão. Meteu a faquinha, abriu o caixão e tirou o fígado do defunto, ainda bem fresquinho. Pendurou o fígado numa embira, lá no gancho duma cruz. Acabar, disse: - Agora vou fazer o enterro dele de novo. Fez o enterro, pegou o fígado e foi embora pra casa.

Quando chegou em casa, disse: - Mamãe, taqui o figo! E a mãe: - Meu filho, por que é que você custou tanto? O menino respondeu: - Mamãe, é porque quando eu cheguei lá num tinha figo. O home disse a mim que só ia chegar mais tarde e eu esperei. Com pouco é que chegou, aí eu comprei e trouxe. A mãe afligiu-se: - Vixe, tá quase na hora do teu pai chegar pro almoço! O menino foi logo se saindo: - Mamãe, eu tou sentindo uma coisa ruim. A mãe: - Meu filho, é de fome, que você não merendou. Espere aí que eu vou buscar um café com pão. O menino só tomou o café, não quis o pão. Disse que estava com dor de barriga e que também não queria almoçar. A mãe aprontou o fígado e antes do pai chegar, o menino disse que ia pra casa de um vizinho. O pai chegou, a mãe botou o almoço e ele perguntou pelo filho: - Cadê fulano? Ela respondeu: - Fulano disse que andava com uma coisa ruim e não queria almoçar. Foi pra casa de um vizinho. Mesmo assim, vou deixar um pedaço desse figo pra ele. Meia hora depois, o menino chegou e a mãe ofereceu: - Fulano, tu quer comer? O menino: - Tô cheio, já comi na casa do vizinho. A mãe não insistiu mais. O menino ficou por ali, até que chegou um amigo. Os dois foram lá pra fora conversar. Depois, saíram.

De noite, o menino demorou a voltar pra casa. O pai chegou, deu sete, oito horas e nada. Quando passou das oito, lá vem o menino, puco, puco, puco, correndo. A mãe deixava a porta encostada, ele só fez empurrar e tibungo dentro da rede. A alma vinha correndo atrás: - Eu quero meu figo! Aquela perseguição. Ele entrou dentro de casa e a alma entrou atrás. Quando o menino deitou na rede, a alma encostou na beirada e continuou: - Eu quero meu figo, eu quero meu figo! Então, o menino com medo pediu: - Papai, deixa eu ir dormir mais você. A mãe não concordou: - Não, fique aí na sua rede mesmo. Mas o filho insistiu: - Deixa, papai. O pai, preocupado, perguntou: - Você tá com medo? O menino disse que sim. ­ Pois venha, meu filho, se deitar comigo.

Então, o menino se levantou na carreira da rede dele e tibungo, foi dormir com o pai. Entrou na rede e se abraçou com o pai, porém a alma não desistiu, baixou na beirada da rede e repetiu: - Eu quero meu figo! O menino, de susto, deu um grito. Foi o derradeiro da vida dele. Morreram na hora, o menino e o pai. Fizeram o enterro e três dias depois, a irmãzinha do menino pediu à mãe para ir à rádio, no programa do Zé Ivo, contar a história. Provavelmente ela ouvira o irmão contar ao amigo o ocorrido, quando os dois se encontraram perto da casa. A menina estava no quarto e os dois conversavam junto da janela. Ou, quem sabe, o menino revelou a história à irmã durante um sonho.

O fato é que a menina perguntou à mãe: - Mamãe, você sabe que eu tenho uma história tão bonita pra contar ao Zé Ivo? A mãe admirou-se: - Tem mesmo, minha filha!? A menina respondeu: - Tenho! Eu quero que a mamãe me leve lá pra eu contar essa história! A mãe arrumou a menina e a levou. Chegou na rádio e disse: - Olha, Zé Ivo, o que esta menina tem pra contar! Ela veio para contar uma história que ainda não contou pra ninguém. Então, Zé Ivo foi ao microfone e anunciou: - Quem estiver com o rádio aberto, escute a história que essa menina de seis anos vai contar. Ela chegou com a mãe dela, para contar uma história que só agora será revelada.

Maria Teixeira ouviu a história e gravou na memória. Talvez, por sua vontade, tivesse outra engatilhada, para nos contar. Eu, porém, sugeri que voltássemos à sua história de vida, ao tempo em que ela se mudou para Lagoa do Mato e vivia na casa dos pais. Ela aceitou e retomou o fio da meada: ­ Eu era criança e naquela época todo mundo só fazia trabalhar. Eu comecei a dar conta da minha vida com oito anos, trabalhando de alugado. Eu plantava e quebrava milho, apanhava feijão, capinava e ganhava meu dinheiro.

Divertimento de criança, Maria pouco conheceu, a não ser em casa, com as irmãs, brincando com umas calunguinhas de pano que elas mesmas faziam. Outra distração não havia, nem mesmo rádio ou escola. Depois que se tornou moça, foi trabalhar na extração da

cera de carnaúba. Retirava o olho da carnaubeira, deixava secar, riscava e retirava o pó para fazer a cera. Em seguida, trançava a palha riscada, e fazia surrão, bolsa, vassoura e chapéu. Até que a irmã mais velha de Maria casou e foi morar na praia. Depois, a segunda foi até a casa da primeira, conheceu um rapaz, começou a namorar e, também, acabou casando. Este rapaz, que era irmão de Raimundo, foi trabalhar com o pai de Maria. Pagou Raimundo, seu irmão, para brocar um roçado para ele em Lagoa do Mato. Raimundo foi, brocou dois quadros de roçado, um para o irmão e outro para ele. Deu-se bem no trabalho e acabou, ele também, por ficar em Lagoa do Mato. Ganhou amizade com Maria. Apaixonou-se. Maria, porém, nesta época, namorava com um cantador. ­ Esse cantador todo mês ele ia lá em casa com outro cantador fazer cantoria. Ele era do rio do Inácio e chamava-se Osias. Andava lá em casa, doido pra se casar comigo.

Certo dia em que Osias saiu para comprar cigarro, o pai de Maria chamou o outro cantador, parceiro dele, de nome Joaquim Neto e perguntou: - Me diga uma coisa, esse cara aí, ele é casado ou é solteiro? Joaquim Neto respondeu: - Não, Seu Raimundo (que era também o nome do pai de Maria), ele é viúvo. Maria, lá no canto dela, escutando tudo. O cantador continuou: - Agora é assim, ele é cantador e só veve no mundo, cantando. Uma vez, se casou e saiu cantando, passou três mês no mundo e a mulher em casa, esperando menino. Ela descansou, pegou uma fraqueza, morreu, e ele andando por aí. O pai de Maria admirou-se: - Foi mesmo!? Joaquim Neto continuou: - Ele é tão preguiçoso, que tem um irmão e o pai dele comprou duas enxada, encabou as enxada e deu uma pra ele e outra pro outro irmão. O outro ficou com a enxada e esse aí rolou o cabo da enxada bem no meio pra num trabalhar. Joaquim Neto falando e Maria escutando.

Já fazia três meses que Maria namorava com o tal cantador. Depois de ouvir aquela conversa, pensou: - Sabe de uma coisa, eu num vou mais querer esse cara. Eu sou uma moça trabalhadeira e num tenho prano de casar com home preguiçoso. Meu prano é querer um home trabalhador como eu. Eu vou lá fazer empenho de trabalhar pra dar de comer a home! Eu quero trabalhar igual cuma ele, mas num quero home preguiçoso. Eu vou deixar ele. Naquele momento, Maria decidiu: - A partir de hoje, não quero conversa com ele. Houve a cantoria, de noite, e Maria nem aí. Até que, umas horas, Osias chamou a namorada e disse: - Maria, o que foi que te contaram, que você tá tão diferente pro meu lado? Ela respondeu : - Eu tô lá diferente pra tu, doido! O namorado insistiu: - E como é que tu nem tem mais conversa comigo? Maria: - É porque eu num tô a fim de conversar hoje. Naquele dia, Raimundo estava trabalhando no roçado junto à casa de Maria. Um olho na enxada, outro na moça. Maria nunca havia conversado sozinha com ele, porque até então namorava o tal cantador. Além disso, Raimundo vivia pela casa dela, mas era como um irmão. Acontece que, naquela mesma noite, Maria afastou-se do tal cantador. Rompeu o namoro. O pobre entrou na cachaça, amanheceu embriagado e foi embora bem cedo. Antes falou com Maria e esta lhe disse: - É rapaz, num vai dar certo não, num vou te querer não. Pode ir se embora.

A porteira ficou aberta para o Raimundo. Conversa vai, conversa vem, e eles acabaram namorando. Se teve sorte no amor, Raimundo teve azar no trabalho. Veio uma seca e acabou com os dois quadros de roça, que ele havia plantado. Então o pai de Maria, diante do prejuízo, resolveu se mudar, também, para a praia, lugar mais fresco e fértil. Zé Lirisco, casado com a irmã mais velha de Maria, acolheu o sogro. Ficaram todos morando próximos. Depois de três anos de namoro, casaram, Maria e Raimundo. Moravam na praia, mas a cerimônia foi na cidade de Itapipoca. Ficaram na praia por 20 anos, tempo suficiente para terem 12 filhos, seis homens e seis mulheres. Quase todos estão vivos, são músicos e andam espalhados no mundo. Só morreu um que era sanfoneiro. Maria conta: - Comprei três sanfona, mas ele acabou todas. Aprendeu tanto que acabava tudinho. Depois da terceira, quando completou 23 anos, o tal filho chamou Maria e disse: - Mamãe, agora eu não quero mais que você me dê sanfona, eu quero ir embora pro Pará pra poder comprar um conjunto bem grande pra mim.

Com o consentimento dos pais, ele foi tocar sanfona no Pará. De dia, trabalhava como torrador de farinha, e de noite, tocava nas festas. Ensinava os caboclos a manejar a sanfona,

procurava fazer amizades, mas pouco depois de completar 24 anos, o mataram enquanto dormia. Maria explica, ainda com revolta: - Mataram porque tinham muita inveja dele, porque ele era muito tocador, não podia ver um toque uma vez, que aprendia e já fazia uma festa. Pra se lembrar, ela colocou o retrato do filho na parede da sala da frente.

Maria se empolga falando do filho. Passa para os demais: - Aqui tudo é tocador, o Raimundo toca muito, a Narinha toca bombo e triângulo, o Teixeira é sanfoneiro, o Zé Maria é batedor de pandeiro, e esse meninozinho pequeno, que vocês estão vendo, este neto que eu crio, o Cirano, é o maior bombeiro do mundo. Indaguei pelo marido. Ela, como sempre, pegou a deixa e soltou-se: - Ele estava sem rabeca, vendeu, não queria mais saber. Agora, um tenente amigo nosso, lhe deu outra rabeca. Ele se animou. Doutra vez, enjeitou a rabeca e tocou sanfona bem por uns 12 anos. Depois voltou. O certo é que, quando Maria conheceu Raimundo, ele já era bom na rabeca. Começou a pelejar na idade de 14 anos. Depois, correu mundo. Tocava no Mundaú, na serra e no sertão. Fazia festa em todo canto. O pai dele era roceiro, já o irmão mais velho tocava rabeca. Primeiro aprendeu a tocar cavaquinho, depois rabeca. Mas nunca aprendeu direito. Quando o irmão dava uma folguinha, Raimundo pegava a rabeca, experimentava. Levou jeito. Um dia o irmão propôs: - Raimundo eu te vendo a minha rebeca, tu é sempre quem aprende primeiro! Eu num aprendo nada e sou casado, só tenho tempo pro trabalho. Raimundo tinha 14 anos, ao adquirir a rabeca. Já acabou com umas poucas, tocando. Uma das últimas foi uma que Maria comprou. Até que ficou velha demais e ele vendeu. Então, disse: - Maria, agora eu num quero mais não! Num vou mais querer rebeca não! A mulher não aceitou: - Não, Raimundo, se tu quiser nós compra uma pra tu! E Raimundo: - Não quero. Eu já tô desvanecido, tem tocador demais no mundo. Foi quando este compadre do Raimundo, o tal tenente, fazendo uma visita ao casal, reparou no retrato de um tocador na parede da sala de visitas. Conversa vai, conversa vem, Raimundo revelou para o compadre: - Eu também sou tocador, eu tocava rebeca, mas deixei, num quero mais! O tenente perguntou, como não acreditando: - Você num quer mais?! E Raimundo: - Quero não! O compadre não se conformou: - Pois você vai botar sua arte pra diante, eu vou lhe dar uma rebeca! Raimundo aquiesceu: - Se me derem eu continuo. Porque uma rabeca é muito cara e eu sou um pai de família que ganha muito pouco.

Maria ficou contente, toda vida foi cantora dele. Onde ele toca, ela canta. Do que mais gosta, é cantar. Quando moça, cantava nos dramas. Era uma feiteira de drama, como diz. Cantava em quermesse e em todo canto. Seu grande amor, sempre, foi Raimundo. Um dia, depois de muito tempo, ela já casada, apareceu aquele cantador que foi seu namorado. Ela estava em Itapipoca, já depois de cega, sentada na feira, quando ele pegou em sua mão, dizendo quem era. Depois, perguntou: - Maria tu num te casou comigo porque num quis, num foi? Ela respondeu: - Foi porque num deu certo, rapaz. Osias, o cantador, pegou de novo na mão de Maria, apertou e disse: - Ah, meu Deus, ah se aquele tempo ainda voltasse, num é, Maria!? Ela respondeu: - Só nunca, só nunca mais ele volta. E Osias: - É mesmo, Maria, mas qualquer dia eu vou na tua casa cantar lá uma noite todinha pra tu ouvir. Maria achou graça e fez que não acreditava: - Tu vai lá nada! Raimundo Teixeira.

Hoje, Osias é vivo e casado. Casou-se na mesma época em que Maria esposou

Information

Untitled-2

10 pages

Report File (DMCA)

Our content is added by our users. We aim to remove reported files within 1 working day. Please use this link to notify us:

Report this file as copyright or inappropriate

309340


Notice: fwrite(): send of 206 bytes failed with errno=104 Connection reset by peer in /home/readbag.com/web/sphinxapi.php on line 531