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Volume IX Nº5 Setembro/Outubro 2007

Leituras / Readings

Caravaggio: uma personalidade anti-social?

Caravaggio: an antisocial personality?

Os autores tendo por base a biografia e obra do famoso pintor Caravaggio dissertam sobre a possibilidade deste ter um distúrbio de personalidade antisocial. São evidenciadas algumas características deste criador, motivo de profunda polémica na época em que viveu.

The authors based on the biography and masterpieces of the famous painter Caravaggio, explore the possibility of the painter of being considered as having an antisocial personality disorder. Some characteristics are therefore highlighted that were motive of this personality a profound polemic in the era the author has lived.

"Morte da Virgem" (1605-1606), Museu do Louvre, Paris

Carla Silva Interna Psiquiatria do HSC, Hospital Psiquiátrico Sobral Cid, Ceira Maria Antónia Mateus Assistente Hospitalar Graduado do HSC, Hospital Psiquiátrico Sobral Cid, Ceira Óscar Nogueiro Assistente Hospitalar Graduado do HSC, Hospital Psiquiátrico Sobral Cid, Ceira

1 - Introdução e Época Histórico-Política

Michelangelo Merisi nasceu no ano de 1571, em Milão, no Norte de Itália, ainda que tivesse passado grande parte da sua infância na pequena localidade de Caravaggio1. Numa época em que as repúblicas italianas procuravam rivalizar umas com as outras, não só militar, mas culturalmente, os príncipes eram acima de tudo mecenas de artistas que acolhiam entusiasticamente nas suas pródigas cortes. O concílio de Trento terminara havia menos de uma década e com ele a Igreja Católica perseguia as heresias protestantes do Centro e Norte da Europa, em plena ContraReforma. Pontificava em Roma o Papa Sisto V.

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Numa altura em que Portugal agonizava, o mundo estava dividido entre os interesses de França e de Espanha católicos, de Holanda e Inglaterra protestantes e do imenso Império Turco que a leste, alastrava pelos Balcãs e ameaçava Viena. Vencidos em Lepanto, na célebre batalha naval, o Império Otomano ficaria momentaneamente imobilizado nesse ano de 1571. Culturalmente a estética renascentista, evoluíra para o maneirismo, em que os modelos clássicos eram distorcidos através de pintores como Parmegianino ou Giulio Romano. Seria contudo Michelangelo Merisi, que na transição dos séculos XVI com o "trágico" século XVII iria revolucionar a pintura e introduzir uma nova estética: naturalista e barroca, dominada por furores, excessos claros-escuros e êxtases. As origens da ópera remontam também a esta época, por intermédio de Jacopo Peri (1594) e Cláudio Monteverdi (1607). Shakespeare e Cervantes foram longínquos contemporâneos de Merisi, numa sociedade quinhentista marcada pel´ "O Príncipe" de Nicolau Machiavel e pel´ "O Cortesão" de Baltasar Castiglione. Nesta última obra era descrito o modelo do homem perfeito da corte, o qual deveria triunfar e ser reconhecido pelo soberano se fosse modelo de contenção, de educação, de etiqueta. Infelizmente tal obra nunca deve ter feito parte das leituras de Michelangelo ou se foi lida, nunca conseguiu determinar em Caravaggio os comportamentos e cânones desejados a um pintor renascentista.

Cidade Eterna dizia-se dois anos mais novo para assim poder aparecer como um "menino prodígio"1. Encontrou novo mestre no cavaleiro d´ Arpino para quem foi trabalhar, e obteve um primeiro protector e mecenas sob a forma do Cardeal Francesco del Monte. Abertas as portas da elite social e cultura romana, contudo rapidamente se tornou frequentador de locais de má reputação e contraiu uma doença que o obrigou a estar internado 6 meses. As pinturas dos primeiros anos de Caravaggio (a terra onde passou a infância acabou por se sobrepor ao nome do pintor) retratavam jovens semi-nus, em atitudes dúbias e por vezes provocantes. Como modelos escolhidos estava o próprio pintor (visto ao espelho) e amigos de ocasião* (exemplo: "Concerto de Jovens" ou "Os músicos"). Só com 25 anos seria representada a primeira mulher (terão existido experiências homossexuais na adolescência e início da idade adulta?), quando Michelangelo Merisi atingiu o estrelato passando a receber encomendas de diversas entidades religiosas e mudando a temática dos seus quadros do profano para o sagrado. Seria contudo um pintor politicamente incorrecto:

· A maioria dos seus quadros foram rejeitados pelas

congregações religiosas encomendantes, por escabrosos e indecentes;

· Diversas vezes foi necessário fazer uma segunda versão, mais "púdica", da tela encomendada (exemplos: "Conversão de São Paulo" e "São Mateus e o Anjo");

· Os modelos escolhidos eram geralmente gente do povo, 2 - História Pessoal

O arquitecto Fermo Merisi teve, com a sua mulher, 5 filhos. Vítima da peste que grassava no Norte de Itália, morreu contudo cedo, deixando Michelangelo órfão com apenas 5 anos. Dadas as dificuldades experimentadas pela amputada família, o jovem começou a trabalhar como aprendiz no atelier de Simone Peterzano com apenas 13 anos, em Milão. Ainda adolescente ficou órfão da mãe e terá estado envolvido em agressões, que determinaram a venda de grande parte dos bens familiares, para evitar a prisão (Mantanera, 2006). Com 18 anos decidiu rumar a Roma, ávido do sucesso que poderia encontrar na Corte Papal. Quando chegou à

* Exemplo da cigana que ia a passar na rua e que foi chamada para posar para um quadro: "A Adivinha" (1596-1597).

mais particularmente do submundo do crime da Cidade Eterna (prostitutas, apareciam a representar a virgem, ladrões emprestavam o rosto a santos...). Os quadros religiosos de Caravaggio eram demasiado humanos: os rostos e pés das personagens que pintava estavam sujos, como o das pessoas comuns. Cenas normais e domésticas tornavam-se o epicentro de episódios bíblicos (exemplo: "Vocação de São Mateus"). As virgens eram enfim, mais terrenas do que celestiais. Esta provocação premeditada a par do que se podia considerar

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como uma defesa dos mais desprotegidos, teria a ver com o facto de quem posava para os seus quadros ser geralmente de humilde condição;

5 - Michelangelo, feriu gravemente Mariano Pasqualone, cliente da prostituta Lena Antognetti (modelo de quadros de Caravaggio). Terá sido por uma questão de ciúmes? Apresentou queixa contra Caravaggio, que teve de fugir para Génova (1604). Mais tarde foi retirada misteriosamente a queixa e o pintor pôde regressar a Roma (Lambert, 2003); 6 - Durante um jantar no albergue do More, Caravaggio indignado com uma pretensa desconsideração, lançou um prato de alcachofras a ferver à face do empregado, tendo provocado uma briga geral. Foi detido e libertado novamente com ajuda dos seus protectores! (Lambert, 2003) 7 - Assassinou um homem, sargento da corte, com uma pancada violenta no crânio. Michelangelo jurou que "uma pedra caíra de um telhado" ... foi novamente detido na prisão Tor di Nona. Tendo subornado dois guardiões ... fugiu! (Lambert, 2003) Mais uma vez a protecção de um cardeal, permitia-lhe os meios materiais para essa fuga! 8 - No porto de Ripetta, envolveu-se numa briga, atirando pedras contras as portadas da casa de uma mulher que alugava quartos (Lambert, 2003); 9 - A 20 de Maio de 1606, durante uma partida de pela, acusou o adversário, Ranuccio Tommasoni de Terni de fazer batota, apunhalando-o até à morte (sendo também ferido). Foi condenado à pena capital mas conseguiu fugir de Roma, disfarçado[2]. Apesar dos seus méritos, teve de deixar o Estado Papal, uma vez que os seus sucessivos crimes defraudavam não só as leis vigentes como os seus infatigáveis protectores***; 10 - Refugiou-se em Nápoles durante um ano, rumando depois para Malta (1607) onde conseguiria a proeza de ser admitido como cavaleiro da Ordem dos Hospitalários (o acesso estava apenas reservado a elementos da nobreza!), seguida da sua façanha bem mais corriqueira de se envolver em problemas e zaragatas. Julgado e condenado, expulso da Ordem de S. João do Hospital de Jerusalém (considerado membro "putridum et foetidum"), foi preso na prisão de Sant´Angelo (Lambert, 2003).

· As entregas das obras sofriam atrasos, que acarretavam multas ao pintor;

· A sujidade, a doença, o defeito físico, a velhice, a

nudez chocavam o observador mais desatento das suas telas (exemplo: "Nossa Senhora dos Peregrinos");

· Pormenores irrelevantes dominavam afinal quadros

que se pediam religiosos (exemplo: o rabo de cavalo na segunda versão da tela "Conversão de São Paulo");

· O gosto pelo chocante, pelo sórdido, pelo atroz, pela

violência. Cabeças decapitadas, sangue que jorrava desenhando o nome do pintor (exemplo: "Degolação de São João Baptista"), armas que brilhavam nas trevas... Se os quadros eram belos, mas chocantes, a vida privada do pintor era apenas... brutal:

· Não se casou, não teve filhos, viveu no meio dos seus

modelos... prostitutas e bandidos. Tabernas, álcool, banquetes, excessos, foram o quotidiano do artista. A corte Papal foi apenas um meio de subsistência para o libertar da miséria económica e das complicações legais por si multiplicadas...

· Delitos e disputas com a justiça na sua idade adulta:

1 - No início de 1601, lutou com Flávio Canónico e somente a intervenção do embaixador da França, o livrou da prisão (Mantanera, 2006); 2 - Michelangelo Merisi feriu um tal Girolamo Spampa com um golpe de adaga, por este ter criticado as suas pinturas para a Igreja de S. Luigi dei Francesi. O processo foi arquivado (Lambert, 2003). 3 - Acusado de ter escrito ou mandado escrever e propagandeado sonetos difamantes sobre o pintor Baglione**, foi detido e encarcerado na prisão de Tor di Nona. Posteriormente foi libertado por intercessão de dois ou três Cardeais e do Marquês Giustiniani ;

[2]

** Inicialmente admirador e imitador de Caravaggio. Mais tarde, Baglione, mudou radicalmente de posição: tornar-se-ia, no seu primeiro biógrafo, aliás bastante crítico, como é óbvio para o biografado.

*** Caravaggio tinha 35 anos.

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Novamente logrou fugir, desta vez para a Sicília, onde saltitou mais um ano, entre Siracusa, Messina e Palermo. Regressado a Nápoles foi agredido e deixado às portas da morte (pensa-se que por alguém a mando dos Hospitalários). Escapou milagrosamente e rumou a Porto Ercole ocupado pelos espanhóis. Novamente preso, argumentou orgulhosa e falsamente ser um nobre cavaleiro da Ordem de Malta! Negociava o seu perdão Papal e o regresso a Roma quando no dia 18 de Julho de 1610, foi encontrado morto na praia. Vítima de malária? Septicémia pelos ferimentos infectados? Assassinado pelos inimigos que tão facilmente soubera granjear ao longo da sua breve vida? Houve mesmo quem tivesse visto no acontecimento uma farsa encetada pelo errante pintor, para fugir mais uma vez aos seus perseguidores. Independentemente da possível causa, Michelangelo Merisi deixou de pintar com apenas 39 anos...

um mais pudico véu;

· Cabeça de Medusa (1598-1599): Realça-se a expressão de um rosto terrível, o olhar angustiante. O sangue que jorra é perturbador...

· Vocação de São Mateus (1599-1600): O cenário lembra uma taberna, mas afinal era uma repartição de impostos do século XVII, onde figura...Jesus Cristo!

· Martírio de São Mateus (1599-1600): Acção violenta

em que um jovem semi-nu derruba e se prepara para matar o idoso santo. Uma criança foge da cena com um rosto de profundo terror;

· Conversão de São Paulo (1601): O cavalo ocupa praticamente todo o espaço do quadro. Uma primeira versão foi recusada. Nela dois anciãos barbudos impressionavam o espectador; um deles, literalmente de tanga era São Paulo;

· A Crucificação de S. Pedro (1601): Os carrascos foram

representados na tarefa de içarem a cruz com ar de quem cumpre o seu dever com honra e esforço quase sobrehumano!****

3 - Selecção de quadros do pintor: · Pequeno Baco Doente (1593-1594): Auto-retrato do

artista convalescente em que se representa com estrabismo;

· O amor triunfante (1601-1602): Amor representado por

um adolescente em nudez completa, armado, pisando os símbolos do saber e da força;

· São Mateus e o Anjo (1602): Este quadro foi inicialmente recusado pois o abraço do anjo ao Santo era demasiado carnal na primeira versão;

· Rapaz mordido por lagarto (1595): Retratado o efeito

surpresa, a dor e as reacções psicossomáticas;

· A deposição no Túmulo (1602-1603): Constituiu a

única obra devota que foi aceite sem hesitação, pelos clientes, mas mesmo assim com modelos de profissões duvidosas;

· São Francisco em êxtase (1595): Primeiro quadro de

estética barroca. São Francisco aparece deitado nos braços de um anjo semi-nu em atitude dúbia!

· Concerto de Jovens ou Os músicos (1595-1596):

Jovens de olhar lânguido e provocante, que parecem pensar em tudo... menos na música!

· Nossa Senhora dos Peregrinos (1604-1605): A Virgem teve

como modelo a prostituta Lena Antognetti. Os dois peregrinos apresentavam-se com aspecto devoto, mas sujo!

· A Madalena Arrependida (1596-1597): A modelo era a

prostituta Giulia, possível amante do pintor;

· Morte da virgem***** (1605-1606): Obra recusada por

ausência de decoro. Usou como modelo uma prostituta que grávida se suicidara, atirando-se às águas do rio

· O repouso durante a fuga para o Egipto (1596-1597): A

virgem de cabelos ruivos dorme em cima d´ o Salvador, que é louro arruivado. S. José apresenta-se de pés descalços e sujos com uma vasilha de vinho ao alcance da mão;

· Judite e Holofernes (1598): Representa uma acção violenta, em que Judite decapita o rei Assírio. A radiografia do quadro demonstrou que inicialmente os seios estavam nus, tendo posteriormente sido cobertos por

**** A mesma postura heróica foi retomada na conhecida fotografia do içar da bandeira americana na batalha de Iwojima! ***** A igreja romana Santa Maria Scala recusou o quadro, tendo no entanto sido comprada por Rubens.

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Tibre. Representou-a num ambiente de pobreza extrema "inchada e com as pernas a descoberto" (Baglione, 1642). O quadro foi obviamente motivo do maior escândalo, recusado pelas Carmelitas e comprado mais tarde pelo representante do Duque de Mântua, o pintor Peter Paul Rubens!

· Nossa Senhora dos palafreneiros (1605-1606): O pintor

tinha retratado a Virgem sob o rosto de uma prostituta e Jesus aparecia como um rapazinho todo nu! Acusava um dos secretários dos cardeais: "neste quadro não se encontra nada mais que vulgaridade, sacrilégio, falta de respeito e desprezo" (Lambert, 2003);

· As Sete Obras de Misericórdia (1607): Uma jovem alimenta um velho ao peito em surpreendente elucidação do "dar de comer a quem tem fome"!

· A degolação de São João Baptista (1608): O único

que contém a sua assinatura; o nome de Michelangelo aparece numa poça de sangue que sai do pescoço do santo degolado; maquinalmente o seu carrasco agarra uma faca que tem atrás das costas e prepara-se para acabar de separar a cabeça do corpo de São João Baptista;

· David segurando a cabeça de Golias (1609-1610):

Considerado o último quadro do pintor. Nesta tela, o jovem David ilustra tristeza e pena, mas não vitória, a cabeça cortada de Golias exibe o rosto de Caravaggio. Para alguns autores, tal constituiu uma mensagem de pedido de perdão dirigida ao Vaticano nos últimos dias de vida do pintor.

"David segurando a cabeça de Golias" (1609-1610), Galeria Borghese, Roma

par de uma existência marginal e miserável. A suposta homossexualidade de que falam alguns dos seus biógrafos seria motivo para o realismo extremo com que pintava a beleza masculina adolescente, com uma forte carga erótica? A sua alma inquieta e violenta fez converter mendigos em santos e as prostitutas em virgens. Na sua época, Caravaggio foi também considerado como a "ovelha negra" do mundo da arte. Contestatário, inimigo da convenção, adoptou expressões maliciosas ou perversas nas personagens que retratava. Baglione, o primeiro biógrafo de Caravaggio escreveu: "Ele morreu mal, como viveu" (Manzanera, 2006). Consideramos por isso como possível o diagnóstico de um distúrbio da personalidade anti-social, pois este pintor aparenta preencher os critérios diagnósticos da DSM-IV-TR (2002) para esta perturbação. Verificam-se os seguintes itens: 1) Incapacidade para se conformar com as normas sociais no que diz respeito a comportamentos legais,

Discussão e Conclusões

A vida de Caravaggio, considerado o criador do tenebrismo, está coberta de luzes e de sombras, à semelhança dos seus quadros. Este pintor esteve na origem de uma reacção violenta contra o maneirismo, recrutava os seus modelos na rua e não realizava desenho preliminar antes de iniciar qualquer obra (conforme se evidenciou nas radiografias das suas pinturas). Esta personagem misteriosa, socialmente incorrecta, fez transparecer na sua obra, o reflexo de uma alma atormentada. Não existem diários, cartas ou outros documentos escritos por si, apenas actas de julgamentos! Teve uma glória precoce, foi considerado um génio e teve um fim prematuro, a

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como é demonstrado pelos actos repetidos que são motivo de detenção: a vida de Caravaggio foi um cúmulo de conflitos, havendo denúncias por agressões físicas e por libelos difamatórios, tendo inclusivamente sido preso e encarcerado inúmeras vezes; existiram rumores de que havia praticado outros crimes, sendo que a sua prisão em Malta, teria sido presumivelmente por pedofilia2 ou por agressão a agente judicial (Manzanera, 2006; Bruno, 2007); 2) Falsidade, como é demonstrado por mentiras repetidas, ou contrariar os outros para obter lucro ou prazer: Caravaggio mentiu por diversas ocasiões, uma das suas vítimas mortais teria na sua versão sido atingida providencialmente "por pedra caída do cimo de uma casa"; quando desembarcou em Porto Ercole e foi preso pela enésima vez escudou-se com a desculpa de que era um nobre cavaleiro da Ordem de Malta (de onde tinha sido expulso por "putridum et foetidum"); mentiu na idade quando chegou a Roma! 3) Impulsividade ou incapacidade para planear antecipadamente: actos violentos em que se envolveu ocorreram em contexto, nomeadamente de discussões acesas; mas também de um simples banquete com um serviçal incompetente! 4) Irritabilidade e agressividade, como foi demonstrado pelos repetidos conflitos e lutas físicas: os encontros de Caravaggio com a justiça tornaram-se habituais e as suas acções violentas multiplicaram-se; para além de tudo, suportava igualmente mal as críticas (o pintor Girolamo Spampa foi agredido por criticar os seus quadros); 5) Desrespeito temerário pela segurança de si próprio e dos outros (fugas arriscadas, como a de Malta para a Sicília; ferimentos sucessivos que se foram acumulando no corpo do pintor); 6) Irresponsabilidade consistente, como é demonstrado pela incapacidade repetida para manter um emprego ou honrar obrigações financeiras: atrasava muitas das obras encomendadas, tendo inclusivamente sido multado (exemplo: "Martírio de São Mateus"); os seus mecenas tinham de se desdobrar em esforços para o livrar de mais sérios problemas com a justiça; 7) Ausência de remorso, como é demonstrado pela racionalização e indiferença com que reage após ter

magoado, maltratado ou roubado alguém: após matar um homem, ser acusado, aguardar julgamento... matou outro; numa das suas parcas frases que chegou até nós, precisamente de um julgamento, dizia Michelangelo Merisi: "Para mim a expressão homem bom significa alguém que sabe fazer bem o seu ofício de maneira que na pintura um homem bom é aquele que sabe pintar bem e imitar bem as coisas reais". A referência a conflituosidade já desde a adolescência (Manzanera, 2006), aponta para a existência de um distúrbio do comportamento prévio, apoiando assim o diagnóstico. Não podendo Caravaggio comparecer para perícia psiquiátrica, nem podendo argumentar contra a acusação de psicopatia, cabe-nos a cómoda tarefa de o podermos condenar no tribunal da história. Temas macabros, trevas e cenas chocantes povoam películas de terror da actualidade, contudo são os seus realizadores, gente mais pacata que exerce a catarse dos seus conflitos, matando fingidamente "os actores". Em Caravaggio contudo para além da estética, existe ainda a sua vida, uma sucessão de aventuras, de conflitos com a justiça, de violência, de crimes, de castigos, de fugas, de mentiras... A vida do pintor daria um filme, em que meios senhoriais e marginais se intercalariam, em que as prostitutas e ladrões da sua entourage se somatizavam em santos, nos seus quadros. Parece que se cumprem todos os critérios de personalidade anti-social em Caravaggio. Devemos condená-lo? Talvez admirá-lo pois apesar de tanta impulsividade, de tanta irritabilidade, de tanta angústia consegue plasmar o seu sofrimento interior em telas belas e perturbantes que farão parte eterna do património da humanidade. Pobre Michelangelo, que podendo viver como um cortesão, acabou fugindo de marginalidade para marginalidade. Parecendo querer escapar de quem o perseguia, fugiu afinal apenas de si próprio. E desafortunado também de quem se cruzou com ele. Ou temeria as suas explosões coléricas ou receberia em troca do seu apoio incondicional obras não encomendadas e conflitos permanentes... Embora Caravaggio não tivesse tido filhos, nem aprendizes, conseguiu por intermédio da sua produção artística criar uma nova geração de pintores, que por toda a Europa, seguiriam os ensinamentos do genial criador.

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Destacou-se mesmo uma corrente de pintores denominados por "Caravaggianistas", que como uma epidemia alastrou por toda a Europa. Orazio Gentileschi em Itália, Georges de La Tour em França, Mattia Preti, cavaleiro da ordem de Malta e o próprio Pieter Paul Rubens beberam da sua inspiração e dos seus geniais quadros. Este último reproduziu uma cópia da obra "A deposição no túmulo" mas em que suprimia uma das famosas "prostitutas de Caravaggio"! De génio e de louco...

Bibliografia

Manzanera, L. (2006): Caravaggio- El senor de las tinieblas. Revista Clio, Enero; 64-67. Lambert, G. (2003): Caravaggio. Taschen, Público. DSM-IV-TR (2002). Climepsi editores, 4ª Edição, Lisboa. Bruno, S. (2007): Caravaggio. Colecção Grandes Pintores do Mundo. E-ducation.IT. Portfolio. Firenze.

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